Um dos meus leitores mais participativos, o sr. Wallace, reclamou por eu não ter respondido de modo apropriado suas indagações. Todos os seus questionamentos podem ser vistos clicando aqui.
Mas, como havia lhe afirmado, na medida do possível tentarei esclarecer, de acordo com o meu ponto de vista, as indagações que foram feitas.
Separei em posts diferentes por ser inviável responder questões mais complexas sem o devido cuidado. Por isso todas as minhas respostas para essa questão virão dentro desta série de posts: “Respostas para Wallace”.
A primeira será acerca da relação entre Deus e a origem do Mal. Para contextualizar, começarei reproduzindo o comentário do Wallace, logo em seguida farei minhas considerações:
O problema de entendimento da questão é tão somente o reducionismo da nossa conceituação de quem é Deus, sua natureza e objetivo da criação. Para respondermos a isso, o primeiro passo seria pensar: “Por que Deus criou o Universo?”. Será que Deus precisava de algo? Qual o objetivo de Deus na Criação?
O fato é que Deus não precisa, nunca precisou, e nem precisará de nada. Ele é auto-existente e auto-suficiente. Ele é absolutamente completo em si mesmo. Logo, o ato da criação não se deu por alguma necessidade de Deus. Se deu por causa da Sua essência.
Deus é amor. Esse amor eterno, pré-existente, movimentando-se dinamicamente em si mesmo por sua natureza Trina, do amor entre o Pai, o Filho e o Santo Espírito, é perfeitamente satisfeito em Si. E sendo da natureza do amor expandir-se, a criação se dá como a manifestação do profundo amor de Deus, derramado em um ato criativo perfeitamente harmonioso e belo. Toda a Criação, posso afirmar liricamente, canta louvores a Deus. Se olhares para a beleza, perfeição, simetria, harmonia, melodia do universo, perceberá que se trata de uma sinfonia composta e executada por Ele.
Dentro desta criação existe um ser que foi feito com atributos compartilhados do próprio Deus: o amor, a moral, a intelecção, o raciocínio elevado, a capacidade de abstração, enfim um ser único. Na linguagem bíblica, um ser a imagem e semelhança Dele.
Veja bem, o ato de amar pressupõe liberdade. Não existe amor compulsório. Você pode pagar pelo sexo, não pelo amor. Digamos, apenas como força de expressão, que Deus tivesse que fazer uma opção – ou ele criaria um mundo de seres autômatos (robôs, desprovidos da capacidade de amar) ; ou então criaria um ser com a capacidade única de amar, de amá-Lo, e com a liberdade para rejeitá-Lo, pois o amor pressupõe também esse risco. Ele considerou que valia a pena o risco. Muito obrigado, Senhor, pela liberdade de amar-Te.
Deus não criou o mal, mas a possibilidade do mal. Essa possibilidade é a nossa própria liberdade. E a nossa liberdade é a única forma de haver amor.
Mas, Deus sabia que isso iria acontecer?
Claro. Ele é Onisciente. Tanto que a Bíblia apresenta Cristo como o Cordeiro imolado antes da fundação do mundo.
Mas, se Deus sabia, isso não tiraria a responsabilidade do homem sobre o seu ato?
Não. O fato de que Deus sabia não tira a responsabilidade. Isso é um pensamento também reducionista de quem não consegue perceber que a estrutura espaço-tempo, com sua linha sequencial passado-presente-futuro é algo circunscrito ao Universo físico, à Criação. E Deus se situa além da Criação. O cristianismo não é uma religião panteísta.
Por que Deus, então, simplesmente não elimina de uma vez o mal do mundo?
1) Não seria um ato de amor. Se o objetivo da criação é o relacionamento pleno e satisfatório em amor entre a humanidade e Deus, como isso poderia ser atingido se, sempre que através dos nossos atos de rebeldia nós pecássemos e o mal viesse, e Ele “reiniciasse” tudo? Não haveria o pleno e satisfatório amor. Não estaríamos voltados de fato, em amor, a Ele.
2) Deus não quebra as regras que Ele mesmo fez. Se o fizesse, não seria Onisciente. Esses remendos seriam a prova de sua incapacidade como Deus.
3) Quem disse que Deus não está eliminando o mal do mundo? Cristo Jesus é o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. Em Cristo está a remissão e a redenção final de todas as coisas. Mas Ele o faz levando-nos em seus braços ao Pai, transformando-nos e possibilitando que sejamos amados de Deus, e que possamos também amá-lo. Nós precisamos depor as armas, nos render, e deixar de lutarmos contra Ele.
Talvez esse não fosse método que você utilizasse. Mas você não é Deus. Ele É.
A doutrina da Queda não é desproporcional?
Não. Por dois motivos:
a) A gravidade da ofensa varia de acordo com o objeto da ofensa.
Imagine o seguinte exemplo:
Ato:
Agressão
Objeto do agravo:
Situação A – uma barata;
Situação B – um bebê recém nascido.
Você consegue perceber a diferença? O ATO pode ter sido o mesmo, mas se mudarmos o objeto, muda completamente de figura.
Agora, se o objeto do agravo for um ser infinitamente belo, infinitamente amoroso, infinitamente bondoso, que te fez, que cada vez que você respira isso só é possível por que ele te dá o fôlego de vida, que é infinitamente magnifico em beleza e santidade, qual seria a gravidade do agravo? Pois é. Isso mesmo que você pensou.
b) A consequência do pecado não é um ato punitivo de Deus. É a consequência. Se em um inverno rigoroso, com a temperatura na casa dos zero graus, você se afastar da lareira, começará a sentir frio. Isso não é um ato punitivo da lareira.
De igual forma, se você se afastar da fonte e origem da vida, começará a morrer. Simples assim. Por isso que o salário do pecado é a morte. Todo pecado é uma ato contra Deus, a ao fazê-lo, você se afasta dele. Ao se afastar, morre.
Por isso também que a salvação em Cristo Jesus é a vida eterna. Ao se aproximar em amor do Autor da Vida, qual seria a consequência, se não a vida?
Mas e a maçã, e coisa e tal?
A ideia de que a Queda se deu por causa de que Adão comeu a maçã da Eva é apenas demonstração clara de ignorância acerca dos textos que se está lendo. Infelizmente, essas ideias e erros são grandemente disseminados por pessoas que ou não entendem o que estão lendo, ou fazem papel de bobo para tentar enganar os mais bobos ainda.
Não se pode ler as Escrituras como que lê uma HQ. Trata-se de um livro para adultos. E espera-se que seja lido e interpretado hermeneuticamente como tal.
Na Paz.
