Contar os Anos

“Ensina-nos a contar os nossos anos, para que tenhamos coração sensato!” (Sl 90,12)

Preciso aprender a contar os anos. Sempre fui ruim nesse aspecto, nunca me percebendo na idade certa.

Por ser o caçula de quatro irmãos, acelerei, pulei etapas, na ânsia de me livrar do estigma de caçulinha.  Queria estar no mesmo momento de vida que meus irmãos, ser mais velho que era. Lia os mesmos livros, queria fazer o que eles faziam, media a minha vida pela deles.  E envelheci cedo.

Fui o único menino de treze anos que lia Nietzsche da redondeza. E achava que entendia. Debatia sobre política, filosofia, religião, música com os caras mais velhos, muitas vezes dominando certos assuntos melhor que eles. A consequência foi um ego cada vez mais inchado. Para mim, todos os que não eram eu, eram carentes de inteligência.

Aos dezoito, pensava que sabia tudo da vida, que era o “descolado”. Via-me adulto feito, pronto para todos os desafios que viessem.  Era o dono da razão, sempre.  Então, tomava decisões sozinho, pois só eu era o certo.

Mas o fato é que eu era ainda mais estúpido que hoje. Não enxergava um palmo na frente dos meus olhos, um avestruz com a cabeça enfiada na terra. Era inocente e não sabia. Acreditava nas pessoas, porque cria que eram boas. Mergulhava de cabeça, pois não tinha parâmetros para a dor. Não tinha descoberto que o lago, às vezes, é raso.

Como não contava os anos, não sabia que eu era um menino.   Magoei muita gente querida enquanto quebrava a cara.  Soquei facas, fazendo pose de macho, cauterizando choro que não ousava chorar.

Comecei a ser gente lá pelos vinte e quatro. Uma voz chegou aos meus ouvidos: “Não importa quão precoce você é, você não tem experiência de vida”.  Vi ruir minha prepotência, meu orgulho virou cacos. Havia lama nos meus olhos, enfim lavada pelas lágrimas que pude, finalmente, derramar.

Ainda busco contar os anos de modo certo, e ainda sou o cara de trinta anos mais velho da redondeza. Não tenho um coração sensato. Mas aprecio o passar dos anos, a serenidade que passo a passo tem chegado.E sei que no tempo certo, chego lá.

Não sou um Bom Amigo

Não sou um bom amigo, para com os meus amigos. Não os procuro, não estou presente, não me abro com facilidade. Raros são os que conseguem transpor a muralha de sorriso distante, o olhar nunca direcionado para os “causos” da vida alheia.

Ainda me surpreendo em ver como eles me aturam. Aguentar um cara cada dia mais ranzinza, irônico, impaciente, mordaz e que “se acha” não é tão fácil assim. E fica pior com o descuido com que trato nossa relação.

Não os cultivo como deveria. Meus amigos são ervas daninhas, obstinadas a crescer em brechas do cimento seco. As roseiras há muito morreram pelo meu desamor. Passo anos sem os vê-los. Sem ligar. Penso que alguns deles nem me tenham mais por amigo, por causa da frieza do meu isolamento. Não sei compartilhar sentimentos, não sei dar a atenção que eles merecem, não aprendi a difícil arte de caminhar ao lado.

Tem aqueles que me desculpo pela distância. Os quilômetros que nos separam são ditos como o motivo do meu péssimo comportamento. Mas os que estão perto sabem que isso é só uma desculpa, e que se fôssemos vizinhos também não nos veríamos tanto.

Mas, por mais estranho que possa parecer, me importo demais com eles. São eles que me conhecem, e em que confio. Não caminho ao lado porque eles andam comigo, para onde eu vou. São minha esperança na humanidade, são minhas memórias, são meu refúgio. Falo com eles sempre que fecho os olhos. Cada gesto ficou gravado em mim, como se marca o gado – profundamente, em meio à dor, sem chance de se apagado. Foi nos meus tropeços que eles existiram, e isso me basta.

Vejo suas vidas, mesmo de longe, e percebo como sou afortunado. Eles não. Eles merecem amigos melhores que eu. Não sou um bom amigo. Mas eles são.

Cenas

Já passaram-se doze anos..

Cena 01:
Tarde na sala, revirando vinis velhos, escavando boa música com a dedicação de um arqueólogo. A poeira e o mofo já nem incomodam mais, de tão habituado a eles. Descubro a boa música. Elis, Bethânia ( em especial o “Recital na Boite Barroco”), Chico, Caetano (ainda tropicalista), Jorge Ben (antes do Jor), tantos outros. A música permeia meus dias, entranha na minha pele. Eles cantam minha história, meus amores, meu ímpeto adolescente. Sou eu, metamorfoseado em versos e melodias, derramado no mundo a partir da sala da minha casa no Coqueiro.

Cena 02:
Volta pra casa. Olho pela janela do “Jibóia Branca” lotado e fedorento, enquanto o sol que reinava absoluto se esconde por trás de pesadas negras nuvens. O retorno para o lar sempre trazia consigo essa aventura, com a pontualidade britânica das águas amazônicas. Preparo-me para a corrida desenfreada para chegar em casa antes da chuva. Desço, corro, molho-me. As bainhas da calça de tergal azul tornam-se marrons da lama, a queda espreita a cada passo. Chego encharcado, ofegante, a adrenalina pulsando forte nas veias. De novo. Prometo que no outro dia levarei o guarda chuva. Nunca cumpri essa promessa.

Cena 03:
Minha varanda tem a voz do Paul MacCartney. Deitado na rede, com a perna dando o impulso que implusionam os meus sonhos, fecho os olhos para ver o futuro, negligenciando o presente. Minhas digressões fazem-me percorrer a vida, com o peito cheio de esperança, e me levam a crer que no fim tudo dará certo, mesmo sem saber como. Varanda, Beatles, rede e sonhos compõem um lindo quadro, já vivido. E perpetuaram-se no imaginário.

Sobre Arsène Lupin

Arsène Lupin é um gato. Ganhou seu nome em homenagem à personagem de um livro de Maurice Leblanc, um ladrão de casaca, um gatuno, condizente com a malandragem de quem já nasce de bigode.

 

É curiosamente audaz, talvez por conta de sua infância compartilhada com um cachorro, habitante da mesma casa. Pêlo farto, herança de sua ascendência persa, com a monotonia preto e branca quebrada apenas pelos olhos verdes, de um verde semelhante a fundo de igarapé.

 

Desfilava pela sala com a certeza felina de que nós, humanos, existíamos para satisfazer suas vontades, como gênios da lâmpada em carne e osso. Provocador, o mini tigre tinha por passatempo passear nos muros das casas com os maiores cães, só para ver o desespero impotente dos inimigos. Não que ele fosse mau, ao contrário, tinha uma fidelidade canina (!?). O melhor companheiro para as horas tristes, com um ronronar que soava como: “está tudo bem, agora”. Uma bola de pêlos que falava com os olhos, dividindo as dores e alegrias de ser da família.

 

Ainda filhote, passou maus bocados. Uma coceira na orelha esquerda transformou-se em grave alergia ao ser tratada com andiroba, dando-lhe a aparência do Duas Caras dos quadrinhos. Miúdo, pensávamos que um camundongo lhe daria uma surra, se houvesse encontro entre ambos.

 

Mas cresceu. Em sua fase adulta era o maior e mais bonito gato da redondeza. Lamentavelmente, cada dia que passava sua personalidade assemelhava-se mais a minha. O mesmo ar blasé, o mesmo cinismo, o mesmo espírito nômade . O céu estrelado foi a única testemunha da sua partida. Por causa dos seus hábitos boêmios, demoramos a sentir sua falta – ele breve voltaria, com o ar de ressaca de quem virou anoite na orgia. Mas não voltou.

 

As semanas passaram-se sem que o vazio deixado por Arsène diminuísse. Senti raiva pela ingratidão da partida sem despedida, da falta de contato, a mesma ingratidão que cometi com meus pais. A tristeza de ter sido deixado para trás.

 

Não sei se um dia Lupin voltará. Não sei nem mesmo se ainda vive, pois já faz um ano que ele saiu de casa. As vezes alguém me diz que viu um gato parecido com ele na rua. Penso na hora: “gato filho-da-mãe!”.
Mas até hoje não consegui ter nenhum outro gato, por que esse lugar é dele. Acho que também tenho uma fidelidade canina.

 

Cotidiano

Nas tentativas de descobrir o que vale a pena, encontrei o dia-a-dia.

As vezes procuramos algo que nos impressione, algo que surpreenda pelo grandioso, e deixamos escapar o verdadeiro espetáculo da vida escondido embaixo das pedras da rua. Em cada canto, nos sorrisos descompromissados, despropositados, e por isso mesmo com propósito completo em si. Odes a alegria da viver.

Na rotina diária descobri um novo mundo. O café fumegante, nevoando os pensamentos e transportando para outras dimensões. Cochilar no sofá de casa, sabendo que tudo está bem. Conversar, entremeando concepções de mundo, entrelaçando as mentes e resolvendo os destinos da humanidade. Os grandes mistérios do universo resolvidos pelo humor irresponsável dos meus amigos, com direitos a gargalhadas que ecoam pelo cosmo e atestam que somos nós que (re)construímos o chão que pisamos.

Achei o extraordinário. Ele sempre esteve ao alcance das nossas mãos. Basta fechar os olhos e abrir a alma.

Negro Encontro

Em 1987, quando o “Negro Encontro” foi lançado, eu tinha 07 anos. Não sei bem quantas vezes o li e reli, pois a sua escrita forte, pulsante, sempre me atraía. A simbiose de prosa e verso permeando-se mutuamente, dava novos sentidos para as palavras, transmutando-as em algo a mais, algo captado apenas pela sensibilidade. Se hoje escrevo, não é porque quero, mas por estar nos genes. E sinto um prazer pueril quando, agora adulto, alguns amigos me chamam de Negão, da mesma forma que chamo o meu velho.
A saudade que carrego desde que saí de casa, muito cedo, é a certeza do meu amor pelo Negão Pai, Matão, dando sentido completo em embandeirar o Filho do meu nome.

“Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar.” (Espelho – João Nogueira)

EPÍSTOLA UNIVERSAL DO NEGRO TU

“Eu sou aquele, daqueles habitantes de um mundo paralelo nascido na mente, da pele escurecida que tanto pavor lhe causa. Aquele que, provavelmente hoje mesmo , você encontrou na sarjeta e, qual Pilatos, utilizou mais uma vez o vaso sanitário.
Sabe ?! eu sou esse mesmo que você “aceita” sem se comprometer. Essa negação de cor que, das trevas, você estereotipa como indesejável. Esse mesmo , que sujará sua raça se deflorar sua filha e que já nasceu tendo de provar que é melhor (?!…)
Eu sou aquele, isso e esse mesmo que “carinhosamente” você chama de negrinho. Sabe ?! o trombadinha que você contribuiu para que eu fosse. Esse que suja sua consciência (sic), por se parecer muito com aquela “pretinha”, que seu sêmen emporcalhou, agorinha mesmo, na cozinha de sua casa.
Sou eu, aquele mesmo, que teve de engolir os seus deuses e engulhar suas verdades como se fossem minhas, no total desrespeito que sempre caracterizou as nossas “relações”.
Sou, lembra-se ?!, aquele passageiro dos porões do navio negreiro, que você trouxe para construir esta nação. A força bruta, a tração, que lhe impulsionou a desonestidade e o transformou em senhor. Sou eu mesmo, aquele soberano africano, escravo do marginal europeu que a avareza despejou nos mares.
Eu sou aquele, marcado pelo chicote do analfabetismo, que você finge amar quando necessário. Aquele “pardo” de “alma branca”, que é o “negro mais branco do Brasil”. Aquele mesmo que “suja na saída” e que “é negro, mas… é bom”.
Eu sou tudo isso, que você me fez, e não há retrocesso. Mesmo porque as feridas na alma cicatrizam com maior dificuldade que as marcas das chibatadas, que você me deu. Por isso, jamais haverá retrocesso nesse desamor implantado por você em minha negritude.Jamais retrocederei ao ventre-livre, que a sua eterna hipocrisia me presenteou. E, muito mais ainda, jamais precisarei das suas “leis áureas” ofuscantes para ser realmente livre.
Eu sou tudo isso e muito mais, que a estreiteza de sua visão é incapaz de alcançar. Sou eu mesmo, aquele que traz Palmares no peito e toda a lição de liberdade do negro Ganga Zumba. Aquele mesmo que não acredita na sua aparência de branco, porque aprendeu com os mestres astrais, cultuados na minha “ignorância espiritual”, que tudo no mundo visível em que vivemos é uma interligação precisa e harmoniosa de forças, não existindo por si mesmo. Sabe ?! a minha, a sua, a nossa cor não existe além de nossas próprias limitações de homens. A sua, a minha, a nossa superioridade não se sustenta além das três dimensões a que estamos aprisionados. A própria dualidade, tão necessária para nosso equilíbrio , é a Unidade Suprema no zero absoluto.
Eu sou aquele e a mim basta sê-lo. O negro TU, apóstolo de minhas próprias verdades. O guardião do templo de minha negritude. O mais-que-imperfeito ser sem ser mentalmente divino. Um ser poeta, perfeito na sua imperfeição. Um deus-homem, um homem-deus, um ser-menino.”

Alcir Matos (o pai).

Aos 29

(Reflexões no dia do meu 29º aniversário)

Construí um edifício de 29 andares.
Tijolo por tijolo,
Virando massa,
Carregando entulho.

A planta inicial se perdeu no caminho:
Não reconheço o resultado…
Não foi o esperado.

Fiz andares com material péssimo.
O subsolo é tão profundo quanto sombrio.
Mas tal qual o “Menino Maluquinho”
Ainda tenho macaquinhos no sótão.

No início
Era uma casa muito engraçada…
Hoje
Transformada com o tempo.
Tenho portas, que permanecem trancadas.
Não tenho teto, eu não perderia a Lua.

É difícil.
Eu, difícil.
Edifício.

Sinto vergonha pelas cisternas rotas.
Tem pedidos de perdão que nunca fiz.
Mágoas que continuam sufocadas.
O choro engolido, desde sempre,
Permanece na garganta.

Mesmo assim, gosto do que fiz de mim.
Talvez pudesse ser melhor.
Ou pior. Quem sabe?

Porém deixei o Sol entrar.
Sem arestas, ou limites.
Iluminando tijolo por tijolo
Secando a massa.
O material é péssimo.
Mas o todo glorifica a Deus

(e continua muito engraçado…).

http://www.youtube.com/watch?v=ipjly96rzxA 

“Eu, Belém F., 393 anos, drogada e prostituída”.

Ontem vi em um telejornal a inacreditável notícia que o Pará vai começar a enviar seus pacientes com câncer para o Tocantins e Piauí, por conta do total sucateamento do hospital Ofir Loyola.

Fui imediatamente tomado por uma raiva profunda. Senti-me ultrajado, envergonhado, por que o meu Estado chegou a este ponto, tendo que ser socorrido por dois dos mais pobres da Federação. E pela falta de entendimento minimamente racional que pacientes com câncer não tem tempo a perder com a maratona burocrática que terão que passar para serem transferidos.

Descaso, corrupção, incompetência, falta de políticas públicas eficazes. O governo, em todas as esferas, é visto e usado como cabide de emprego. Pessoas sem capacidade de gerir um mercadinho são colocadas em cargos de confiança por conta dos votos que podem arrebanhar. Meia dúzia de pessoas comandando o desmando paraense.

Ainda lembro-me da época em que nutria esperanças políticas. Da época em que atual governadora era tida como alternativa no cenário político. Mas desde que assumiu o mandato, só repercutem os escândalos da sua administração.

Quanto à prefeitura de Belém, não tenho nem adjetivos para expressar o que penso sobre Duciomar Costa. O “Dudu” ser prefeito é algo parecido com roteiro de filme do Zé do Caixão.

A situação da minha cidade pode ser descrita parafraseando o título de um livro: “Eu, Belém F., 393 anos, drogada e prostituída.”. Drogada, dopada, sem condições de reagir à violência que a acomete diariamente. Prostituída, usada para satisfazer o prazer daqueles que a comandam.

Não quero a “Belém F.”. Quero a Santa Maria de Belém do Grão Pará, bela, rica, efervescente, cultural; quero a minha raiz. Estou há seis anos e nove meses longe dela, só a vejo em rápidas visitas. Como todo paraense, sei do nosso bairrismo, e sei os motivos (justos) para isso. Mas hoje, me envergonho de sê-lo.

Crônicas de um Crente – Viagem ao Extraordinário Mundo Coral

(Este texto eu escrevi em Abril 2007, na época em que a Tamar Jorge era regente do Coral Maranatha. )

A necessidade me fez sair do conforto da minha terra natal, a minha Congregação, e me aventurar por mares nunca antes navegados. A ousadia era me sentir um descobridor da época das Grandes Navegações, porém dotado de uma simples jangadinha…
Quando surgiu esta viagem, parei para pensar: será que conseguiremos chegar lá? E os monstros marinhos, será que eles existem? Tudo que eu havia vivido até então não me prepararam para este desafio.
A missão era simples. Preparar uma homenagem para aniversário do pastor. Teríamos a ajuda do Coral Maranatha.
Talvez você esteja se perguntando por que então tanto drama. Se você se perguntar isto é por que definitivamente não conheces a incrível capacidade de desafinar que tenho! Poucas pessoas semitonam com tanta desenvoltura.
Há pouco mais de dois anos, eu nunca tinha cantado. Apesar de gostar muito de música, minha relação com ela sempre foi de espectador. Lembro-me de um amigo meu que sempre que me via cantando em casa vinha com a mesma gracinha: “Tu gostas de cantar? Então porque não aprende?”. Claro que era justificado pelo sofrimento que eu o causava.
Foi nesta época que surgiu o Marcas de Cristo, grupo de louvor da mocidade. Me senti à vontade, pois oitenta por cento do conjunto era tão desafinado quanto eu. Trabalho árduo para a líder e para o Espírito Santo. Se você tem dúvidas quanto a se Deus faz milagres nos dias de hoje, o Marcas de Cristo é uma prova disto.
Mesmo assim, participar de um coral ainda era uma jornada ao desconhecido. A complexidade, o idioma absolutamente único. Afinal se comunicar entre tons-notas-oitava-abaixo-oitava-acima-tempo-altura é para lingüistas profissionais. A habilidade de cantar e respirar ao mesmo tempo é algo similar a assobiar e chupar cana. Chego ao primeiro ensaio. O meu cérebro faz um “crac”, para tentar assimilar o que estava sendo ensinado. Saio com aquela sensação de “onde foi que me meti”.
Tenho que fazer um aparte sobre os nativos desta terra recém descoberta: são pessoas boníssimas. O prazer, a dedicação, a alegria, a prontidão em ajudar. E que vozes… A música tem a condição de penetrar no fundo das nossas sensações. O louvor tem a condição de elevar nosso espírito até o Espírito de Deus, estabelecendo uma comunicação de amor. Despretensiosamente, em meio ao ensaio, sentia as lágrimas descendo pelo meu rosto.
A propósito, o resultado desta expedição foi satisfatório. Mas o melhor resultado foi ter ampliado o conhecimento. Esta terra desconhecida agora é uma terra também amada. Tá certo, eu ainda sou desafinado. Mas encontrei novas formas de adorá-Lo. E agora, me achando o Pero Vaz Caminha, escrevo dizendo que esta é uma terra abençoada, que receberá de braços abertos os viajantes. “Aqui, plantando, tudo dá!”.

P.S.: Aproveito para compartilhar um vídeo do coral, para que todos possam conhecer um pouco dele.

Palavras

Brinco com as palavras do mesmo jeito que brincava de playmobil quando criança. Despretensiosamente, meio passatempo, meio compulsão. Tenho que escrever.Por sinal, comecei a escrever ainda criança (o que prova que nem sempre melhoramos com o tempo). Era algo natural. Eu “roteirizava” a brincadeira, sempre tinha uma história por trás das aventuras ocorridas no quintal. O passo seguinte foi passar para o papel aquelas mesmas histórias. Nasceu, então meus primeiros dos livros, lançados quando eu tinha entre 6 e 9 anos. Eram do tamanho de 1/8 de ofício, P&B, umas 5 páginas. Desempenhava também a função de ilustrador. Graças a boa vontade dos meus pais em embarcarem na brincadeira.

Depois de um pequeno ostracismo, comum a todas as “crianças prodígio”, voltei a escrever na adolescência, junto com um amigo meu, em uma publicação chamada “Hipócritas”. Devido a um profundo anacronismo nosso, éramos James Dean em plenos anos 90, éramos iconoclastas, satíricos, soltos no “Velho Paes”, Colégio que ainda hoje se ufana de ser o “Colégio mais antigo do Brasil em funcionamento!”. Cada edição nos valia uma ida à coordenação ou diretoria. Colávamos o nosso jornal nas paredes do colégio, curtíamos o momento de fama, e passávamos horas tentando defender a “liberdade de expressão”.

Teve uma ocasião em especial que nossa ida para o SOESE (acho que era essa a sigla da orientação escolar) nos valeu um debate ideológico com o Pinduca, o Rei do Carimbó. O mesmo estava lá por que sua sobrinha precisava justificar umas faltas, pois contratar parentes para dançar carimbó não é considerado nepotismo. Em pouco tempo, o mesmo relembra os tempos da caserna e discursa sobre a importância do “sangue na sarjeta” (expressão literalmente utilizada) para a manutenção do Estado Democrático de Direito. Saí de lá imaginando as mensagens subliminares por trás do “macacuo do macaco macacu macacual, eu conheço um macaquinho que é filho do macacão…”

Nesta época, comecei a enveredar pela poesia. Todo poeta adolescente teve um sublime objetivo para percorrer as veredas do verso e rima – arrumar namorada! Óbvio. Achava que os versinhos desencontrados e comuns iriam compensar a falta de encantos físicos. E pior, não era o único que achava. Passei a fazer poeminhas encomendados pelos meus amigos. Talvez fiasco defina bem os resultados. Ou tragédia. Ou melhor, tragicomédia: pra nós, trágico, pra elas, comédia.

Na fase adulta, novo ostracismo. As coisas perdem um pouco a graça quando se está no início da vida adulta. Depois melhora de novo, quando se aprende que não se deve levar-se tão a sério. É a maturidade, que só será plena quando formos de novo crianças.
Reencontrei a escrita já na Igreja, com a criação do “Do Outro Mundo”, meu micro-jornalzinho cristão. Foi a minha trincheira, onde defendi o que tenho por verdade, mais ou menos do mesmo jeito que aqui. Parei de escrever em uma noite escura, e depois resisti em me institucionalizar.

Hoje, só brinco com as palavras. Preciso delas, são ótimas companheiras. Elas organizam o meu mundo caótico de ideias, sonhos, loucura e fé. Eu as uso para me expandir, elas me usam para existirem.