Cenas

Já passaram-se doze anos..

Cena 01:
Tarde na sala, revirando vinis velhos, escavando boa música com a dedicação de um arqueólogo. A poeira e o mofo já nem incomodam mais, de tão habituado a eles. Descubro a boa música. Elis, Bethânia ( em especial o “Recital na Boite Barroco”), Chico, Caetano (ainda tropicalista), Jorge Ben (antes do Jor), tantos outros. A música permeia meus dias, entranha na minha pele. Eles cantam minha história, meus amores, meu ímpeto adolescente. Sou eu, metamorfoseado em versos e melodias, derramado no mundo a partir da sala da minha casa no Coqueiro.

Cena 02:
Volta pra casa. Olho pela janela do “Jibóia Branca” lotado e fedorento, enquanto o sol que reinava absoluto se esconde por trás de pesadas negras nuvens. O retorno para o lar sempre trazia consigo essa aventura, com a pontualidade britânica das águas amazônicas. Preparo-me para a corrida desenfreada para chegar em casa antes da chuva. Desço, corro, molho-me. As bainhas da calça de tergal azul tornam-se marrons da lama, a queda espreita a cada passo. Chego encharcado, ofegante, a adrenalina pulsando forte nas veias. De novo. Prometo que no outro dia levarei o guarda chuva. Nunca cumpri essa promessa.

Cena 03:
Minha varanda tem a voz do Paul MacCartney. Deitado na rede, com a perna dando o impulso que implusionam os meus sonhos, fecho os olhos para ver o futuro, negligenciando o presente. Minhas digressões fazem-me percorrer a vida, com o peito cheio de esperança, e me levam a crer que no fim tudo dará certo, mesmo sem saber como. Varanda, Beatles, rede e sonhos compõem um lindo quadro, já vivido. E perpetuaram-se no imaginário.

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