Preciso aprender a contar os anos. Sempre fui ruim nesse aspecto, nunca me percebendo na idade certa.
Por ser o caçula de quatro irmãos, acelerei, pulei etapas, na ânsia de me livrar do estigma de caçulinha. Queria estar no mesmo momento de vida que meus irmãos, ser mais velho que era. Lia os mesmos livros, queria fazer o que eles faziam, media a minha vida pela deles. E envelheci cedo.
Fui o único menino de treze anos que lia Nietzsche da redondeza. E achava que entendia. Debatia sobre política, filosofia, religião, música com os caras mais velhos, muitas vezes dominando certos assuntos melhor que eles. A consequência foi um ego cada vez mais inchado. Para mim, todos os que não eram eu, eram carentes de inteligência.
Aos dezoito, pensava que sabia tudo da vida, que era o “descolado”. Via-me adulto feito, pronto para todos os desafios que viessem. Era o dono da razão, sempre. Então, tomava decisões sozinho, pois só eu era o certo.
Mas o fato é que eu era ainda mais estúpido que hoje. Não enxergava um palmo na frente dos meus olhos, um avestruz com a cabeça enfiada na terra. Era inocente e não sabia. Acreditava nas pessoas, porque cria que eram boas. Mergulhava de cabeça, pois não tinha parâmetros para a dor. Não tinha descoberto que o lago, às vezes, é raso.
Como não contava os anos, não sabia que eu era um menino. Magoei muita gente querida enquanto quebrava a cara. Soquei facas, fazendo pose de macho, cauterizando choro que não ousava chorar.
Comecei a ser gente lá pelos vinte e quatro. Uma voz chegou aos meus ouvidos: “Não importa quão precoce você é, você não tem experiência de vida”. Vi ruir minha prepotência, meu orgulho virou cacos. Havia lama nos meus olhos, enfim lavada pelas lágrimas que pude, finalmente, derramar.
Ainda busco contar os anos de modo certo, e ainda sou o cara de trinta anos mais velho da redondeza. Não tenho um coração sensato. Mas aprecio o passar dos anos, a serenidade que passo a passo tem chegado.E sei que no tempo certo, chego lá.
