Conflito entre a Forma e a Essência no Meio Gospel

ouro-no-vaso

Ouvia as músicas do Rodolfo Abrantes na época do Raimundos. Gostava da pegada roqueira, e das letras, que combinavam perfeitamente com o meu “sem-futurismo”* da época.

Tive um impacto quando da saída dele do Raimundos devido a sua conversão ao evangelho, em 2001. Achei uma atitude corajosa, deixar a banda no auge do sucesso, por questões de sinceridade e princípios.
Rodolfo-Abrantes
Gostei do trabalho do Rodox, mas depois de um tempo não me atentei mais para a vida e carreira dele. Esqueci-me.

Em paralelo a isso, vem a minha própria conversão em setembro de 2003, e o as tentativas de encontrar um todo coerente para a minha fé, sobreviver ao movimento neo-pentecostal e retetético.

Sempre observei  a facilidade que as pessoas tem para se encaixar no formato gospel, por causa da minha dificuldade em ajustar-me ao padrão estabelecido.  Quem me acompanha no blog, ou já me ouviu pregando, ou  foi (é) aluno meu sabe bem disto.

Exemplificando, é o caso do cara que era cantor de banda de forró, entra pra igreja, muda o formato e permanece sem alterações essenciais. Se a temática que estava por trás das músicas era o prazer e satisfação mundana, o mesmo padrão permanece como pano de fundo da música gospel.

Ele entra no padrão mais tosco de ser evangélico. É caricato, sem particularidades que expressem a multiforme Graça de Deus. O modelo “Glórias e Aleluias e Lambachurianderras” sem evidência de conversão que mostrem o Fruto do Espírito e o novo nascimento. A galera que trocou a roupa, mas não o coração.

Pra ser sincero não escuto música gospel. Eu louvo ao Senhor através de músicas que falem Dele, e do Seu penoso trabalho.

Pra ser sincero não entendo que adoração é levantar a mão durante a execução da música, fechar o olhos e passar sete minutos repetindo duas ou três frases.

Pra ser sincero não gosto de show gospel, e não o vejo como serviço ao Reino. É somente um negócio, mero entretenimento.

Em meio a esse cenário, de indústria cultural gospel, me surpreendi novamente com o irmão Rodolfo. O cara fora do padrão estético aceito, barbado e tatuado, e consequentemente fora do padrão de “santidade externa”, levanta-se como profeta para denunciar o mercado e a idolatria gospel.thalleco

Sem negociar a Verdade por conveniência, teve ousadia de fazer isso em um evento que ocorreu na Lagoinha. Será que o Thalles Roberto e o seu Thalleco**, ouviram a ministração? Oro pra que todos que ouviram a Palavra encarem as implicações da mesma.

http://www.youtube.com/watch?v=6ftT82r1-JQ

No meio formatado e lambido da industria gospel, o roqueiro (vale lembra que para setores evangélicos, o Rock é do “cão”) foi  quem, com a batida pesada e guitarra, me conduziu a adoração, com a letra que reconhece a fragilidade humana e a dependência de Deus e do seu Poder.

“Eu não posso me conformar
Com esse nível raso
O meu poder humano
Não tem poder pra trazer o teu reino aqui
Minha porção vem do céu
Eu tenho fome de ti, Senhor
Fome de ti, Senhor” – Nível Raso – Abrantes, Rodolfo

Entre formatos, modelos e indústrias, a essência que devemos buscar é de ser servos. O servo é aquele que com o fruto digno de arrependimento expresso na sua vida, nas suas decisões de vida, fortalece a vontade pela busca da “santidade interna”, de transformação. Não podemos mais inverter o começo pelo fim, a causa e a consequência, colocar o carro na frente dos bois.

Em dias assim fico em paz mesmo sabendo que eu talvez nunca entre dentro do esquadro, mas sou grato por não precisar. O Senhor, pela sua misericórdia, tem me permitido servi-Lo pelo amor que há em Cristo.

 

*”Sem-futuro” é uma expressão nordestina, utilizada para os cabras, que de tão sem noção e lesados, são, de fato, sem futuro.

** Thalleco é um ridículo boneco do ídolo gospel Thalles Roberto, ridiculamente vendido por ele mesmo, para crentes absolutamente ridículos comprarem.

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