A Troca

fariseus

Troca.
Claro e escuro em tempos opostos,
formas opostas.
Velha história do boi e mosquito:
opção errada ao engoli-lo.

Troca.
Trocam a Verdade
pois basta-lhes o engodo.
Pobre do urubu, agora cor de rosa.

Seguem as pílulas douradas.
Tolos, fúteis e inconsequentes devaneios.
A heresia acompanha até a adoração,
ao Umbigo Rei, Narciso mestre.

Caminho errado!
Largo demais, fácil demais.
Beco sem saída.
As vezes, só se avança recuando.

Precisamos, urgentemente, voltar para o Evangelho conforme as Escrituras. Esse arremedo farisaico, sem poder e verdade, ofende a Deus e macula a Sua Glória.

Vento de Agosto

Vento forte de Agosto
Sopra impetuoso, insistente
Levanta pipas, move nuvens
Quebra as linhas, voo descendente.

Corre rápido, dança, rodopia
Liberdade de não ter barreiras
Sou vento, sou brisa, sou o alento
Do ar lento parado na caixinha.

Vento venta, eu me invento
Ainda que por um só momento
Sou cônscio daquilo que contemplo:
Ar, força, redemoinhos, remendos.

(sobre meu 30º aniversário)

Imaginação

A mente percorre espaços,
Aqui, lá, em todo lugar.
Expando-me até chegar …
Não sei aonde.
E nem me importa chegar
Esquadrinho cada canto perdido
Todo canto cantado
Encantado pela pequena fada
Imaginação
É ela quem toca na mão dos poetas
Na voz dos tenores
Imprime rimas e louvores
Floresce os bosques e os tucumãs.
Não paro, estou só de passagem
Revejo pessoas, fatos, atos
Falhos ou não
Replay, repeat all.
Relação espaço-tempo definitivamente relativo.
O presente sempre presente
No redimensionamento da memória.
Passado passado a limpo.
Crio novos sons
Vejo a música do ocaso.
Ouço as cores do luar.
Acordes da alma que perdeu o medo de se perder.
A mente percorre espaços.
Corre livre, corrente de vento
Aqui, lá, em todo lugar.
Em todo tempo que o tempo pode achar.

Velho Almir

Velho Almir

Um homem velho envolto em fumaça
Antigo como o carvalho que verga sob o peso das lembranças
Passarinho, enquanto passarão os outros pelo dia
Pequeno e grande índio de nariz pontudo.

Irmão do tempo, quebra e distorce suas dimensões
Viveu mais que seus dias
Remarcando o tempo pelo relógio do seu pulso
Cadenciando as estrelas pelo compasso do seu mundo

Um grande homem de um metro e meio
Gigantesco, antecipa os caminhos com um olhar arguto
Raposa, índio, passarinho
Reflexo dos olhos por traz do arbusto

Mago, druida, encantado
Lenda amazônica, mito
Verdade profunda do fundo das águas
Barrento, negro, puro
Igarapé nas veias, nuvens no teto

Um pequeno gigante apaga o cigarro
Noite sempre companheira
Ao lado a escultura de baganas
Pigarreia, tosse, geme e sorri
As costas doem, comprimidas para caber no mundo
A fumaça dissipa – ele vê.

Trilha Sonora

Tem uma FM na minha cabeça
Tocando sons antigos,
Alguns já esquecidos,
Outros sempre lembrados.

Neles viajo pelo tempo
Revejo a história.
A narrativa é em primeira pessoa.

Leva-me.
Revela-me.
Enleva-me.

Momentos têm trilha sonora.
Arrebatado em mim
Os aprecio novamente,
Como um vinho envelhecido lentamente
Com o correr suave dos anos
Acariciando o barril de carvalho.

Fecho os olhos e escuto.
Tem uns sons antigos
que reverberam na alma.
É a existência em notas.

Então, mesmo sem sentir, canto.
Já não é passado, fez-se presente.
Ocupou o seu espaço.
Permaneceu.
Eternizou-se no ciclo de viver e reviver.

Sempre lembrados, não mais esquecidos.

A Menina e o Espelho

Certa vez conheci uma menina. Vivia o processo de renascer, sem saber ao certo qual o melhor caminho a seguir. Infelizmente, a viver não tem manual de instruções.

Um espinho enterrado no peito, um sorriso constante no rosto. Combinação bela e triste, da flor brotando regada com as lágrimas da maturidade. Dor, medo, joelhos ralados pela decepção.

A menina olha pela janela, e a paisagem não é das melhores. Crescer já é difícil, e o cenário que se desenha é crescer sozinha. Ficará em casa, cuidará das próprias feridas. As vozes ao seu redor povoam seu coração com maus conselhos – igualar-se à mesquinharia das vidas vazias.

Mas ela não é assim.
Ela é mais.
Única, constrói o mundo com a beleza dos seus sonhos.
Encontra-se, reconhece-se
Ao olhar o espelho de frente.
Tira a maquiagem,
Despe-se da infância,
Contempla pela primeira vez
A extraordinária experiência de ser mulher.

Enxuga as lágrimas, respira fundo, e vai em frente. Felizmente, viver não tem manual de instruções. Tem espaço de sobra para descobertas.

Negro Encontro

Em 1987, quando o “Negro Encontro” foi lançado, eu tinha 07 anos. Não sei bem quantas vezes o li e reli, pois a sua escrita forte, pulsante, sempre me atraía. A simbiose de prosa e verso permeando-se mutuamente, dava novos sentidos para as palavras, transmutando-as em algo a mais, algo captado apenas pela sensibilidade. Se hoje escrevo, não é porque quero, mas por estar nos genes. E sinto um prazer pueril quando, agora adulto, alguns amigos me chamam de Negão, da mesma forma que chamo o meu velho.
A saudade que carrego desde que saí de casa, muito cedo, é a certeza do meu amor pelo Negão Pai, Matão, dando sentido completo em embandeirar o Filho do meu nome.

“Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar.” (Espelho – João Nogueira)

EPÍSTOLA UNIVERSAL DO NEGRO TU

“Eu sou aquele, daqueles habitantes de um mundo paralelo nascido na mente, da pele escurecida que tanto pavor lhe causa. Aquele que, provavelmente hoje mesmo , você encontrou na sarjeta e, qual Pilatos, utilizou mais uma vez o vaso sanitário.
Sabe ?! eu sou esse mesmo que você “aceita” sem se comprometer. Essa negação de cor que, das trevas, você estereotipa como indesejável. Esse mesmo , que sujará sua raça se deflorar sua filha e que já nasceu tendo de provar que é melhor (?!…)
Eu sou aquele, isso e esse mesmo que “carinhosamente” você chama de negrinho. Sabe ?! o trombadinha que você contribuiu para que eu fosse. Esse que suja sua consciência (sic), por se parecer muito com aquela “pretinha”, que seu sêmen emporcalhou, agorinha mesmo, na cozinha de sua casa.
Sou eu, aquele mesmo, que teve de engolir os seus deuses e engulhar suas verdades como se fossem minhas, no total desrespeito que sempre caracterizou as nossas “relações”.
Sou, lembra-se ?!, aquele passageiro dos porões do navio negreiro, que você trouxe para construir esta nação. A força bruta, a tração, que lhe impulsionou a desonestidade e o transformou em senhor. Sou eu mesmo, aquele soberano africano, escravo do marginal europeu que a avareza despejou nos mares.
Eu sou aquele, marcado pelo chicote do analfabetismo, que você finge amar quando necessário. Aquele “pardo” de “alma branca”, que é o “negro mais branco do Brasil”. Aquele mesmo que “suja na saída” e que “é negro, mas… é bom”.
Eu sou tudo isso, que você me fez, e não há retrocesso. Mesmo porque as feridas na alma cicatrizam com maior dificuldade que as marcas das chibatadas, que você me deu. Por isso, jamais haverá retrocesso nesse desamor implantado por você em minha negritude.Jamais retrocederei ao ventre-livre, que a sua eterna hipocrisia me presenteou. E, muito mais ainda, jamais precisarei das suas “leis áureas” ofuscantes para ser realmente livre.
Eu sou tudo isso e muito mais, que a estreiteza de sua visão é incapaz de alcançar. Sou eu mesmo, aquele que traz Palmares no peito e toda a lição de liberdade do negro Ganga Zumba. Aquele mesmo que não acredita na sua aparência de branco, porque aprendeu com os mestres astrais, cultuados na minha “ignorância espiritual”, que tudo no mundo visível em que vivemos é uma interligação precisa e harmoniosa de forças, não existindo por si mesmo. Sabe ?! a minha, a sua, a nossa cor não existe além de nossas próprias limitações de homens. A sua, a minha, a nossa superioridade não se sustenta além das três dimensões a que estamos aprisionados. A própria dualidade, tão necessária para nosso equilíbrio , é a Unidade Suprema no zero absoluto.
Eu sou aquele e a mim basta sê-lo. O negro TU, apóstolo de minhas próprias verdades. O guardião do templo de minha negritude. O mais-que-imperfeito ser sem ser mentalmente divino. Um ser poeta, perfeito na sua imperfeição. Um deus-homem, um homem-deus, um ser-menino.”

Alcir Matos (o pai).

Aos 29

(Reflexões no dia do meu 29º aniversário)

Construí um edifício de 29 andares.
Tijolo por tijolo,
Virando massa,
Carregando entulho.

A planta inicial se perdeu no caminho:
Não reconheço o resultado…
Não foi o esperado.

Fiz andares com material péssimo.
O subsolo é tão profundo quanto sombrio.
Mas tal qual o “Menino Maluquinho”
Ainda tenho macaquinhos no sótão.

No início
Era uma casa muito engraçada…
Hoje
Transformada com o tempo.
Tenho portas, que permanecem trancadas.
Não tenho teto, eu não perderia a Lua.

É difícil.
Eu, difícil.
Edifício.

Sinto vergonha pelas cisternas rotas.
Tem pedidos de perdão que nunca fiz.
Mágoas que continuam sufocadas.
O choro engolido, desde sempre,
Permanece na garganta.

Mesmo assim, gosto do que fiz de mim.
Talvez pudesse ser melhor.
Ou pior. Quem sabe?

Porém deixei o Sol entrar.
Sem arestas, ou limites.
Iluminando tijolo por tijolo
Secando a massa.
O material é péssimo.
Mas o todo glorifica a Deus

(e continua muito engraçado…).

http://www.youtube.com/watch?v=ipjly96rzxA 

Ela Existe

Eu amo.
Lutando contra a minha velhice precoce.
Contra as marcas e rugas da alma.

Eu amo.
Meio sem jeito,
Meio distante,
Mesmo isolado.
Sou náufrago em mim.

Eu amo.
A musa ainda sussurra.
É ela
Quem traz para vida as odes
Quem traz para o mundo as cores.

Por ela respiro, e em mim ela existe.

Semente de Baobá

Semente de Baobá.
Potencial
Não realizado, ainda aguardado,
Vislumbrado
Na fragilidade da semente.

Depende da água,
Depende do solo,
Depende do Sol.
Contingências que ainda prendem-a na casca.
… Ainda.

Ela, a semente, precisa morrer para que nasça.
Destino de toda semente.
Ele, seu destino, é crescer.
Tocar o céu com seus ramos.
Beber do céu o orvalho.
Alcançar o mais profundo com suas raízes.

Ela, a semente, precisa morrer.
Só assim ela viverá.