A Peça

Gosto da perspectiva do Eterno. Daquilo que dá sentido ao que não tem sentido em si. De saber que o Tempo, o bom e velho tempo, um dia há de rasgar-se ao meio e revelar o que sempre foi, e sempre será. Perceberei, então, que muitas das minhas questiúnculas foram perda de tempo. Perceberei, então que me apeguei a detalhes, que engoli o boi e engasguei com o mosquito. Os de antigamente estavam certos.

Gosto da perspectiva do Eterno. Sinto-me bem em ser apenas este lapso no tempo, com início-meio-fim tão próximos que se confundem os limites. De saber que o mundo não gira em torno de mim (será?). E no Eterno conhecerei a minha alma, fugidia de mim, fora do meu alcance, sempre. No Eterno os sonhos serão refeitos, poderei senti-la como não sinto agora. Caiu a máscara, fecharam-se as cortinas e o Autor anda no palco. Não serei mais ator, serei eu, finalmente eu, eu e a minha alma, talvez juntos pela primeira vez.

Amo a idéia de Eterno. Do que é, e não pode deixar de ser.

Quem és tu, minha alma?
Fora de mim, dos limites do meu corpo.

Quem és tu, minha alma?
Que pulsa em mim,
Aponta norte,
Movimenta-me sempre.
Biocombustível não patenteado.

Tão inteiramente ligada a mim,
Tão distante.
Somos um,
Quero que sejamos um.
Mas apenas quero.

Quem somos, minha alma?
Depende do dia a resposta.
Todavia, toda via me leva a mim.
A peça já teve 28 atos.
E ainda falta muito para acabar.

(reflexões aos 28 anos, sobre eles.)

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