A Peça

Gosto da perspectiva do Eterno. Daquilo que dá sentido ao que não tem sentido em si. De saber que o Tempo, o bom e velho tempo, um dia há de rasgar-se ao meio e revelar o que sempre foi, e sempre será. Perceberei, então, que muitas das minhas questiúnculas foram perda de tempo. Perceberei, então que me apeguei a detalhes, que engoli o boi e engasguei com o mosquito. Os de antigamente estavam certos.

Gosto da perspectiva do Eterno. Sinto-me bem em ser apenas este lapso no tempo, com início-meio-fim tão próximos que se confundem os limites. De saber que o mundo não gira em torno de mim (será?). E no Eterno conhecerei a minha alma, fugidia de mim, fora do meu alcance, sempre. No Eterno os sonhos serão refeitos, poderei senti-la como não sinto agora. Caiu a máscara, fecharam-se as cortinas e o Autor anda no palco. Não serei mais ator, serei eu, finalmente eu, eu e a minha alma, talvez juntos pela primeira vez.

Amo a idéia de Eterno. Do que é, e não pode deixar de ser.

Quem és tu, minha alma?
Fora de mim, dos limites do meu corpo.

Quem és tu, minha alma?
Que pulsa em mim,
Aponta norte,
Movimenta-me sempre.
Biocombustível não patenteado.

Tão inteiramente ligada a mim,
Tão distante.
Somos um,
Quero que sejamos um.
Mas apenas quero.

Quem somos, minha alma?
Depende do dia a resposta.
Todavia, toda via me leva a mim.
A peça já teve 28 atos.
E ainda falta muito para acabar.

(reflexões aos 28 anos, sobre eles.)

4 thoughts on “A Peça

  1. Fala, doido!
    Em vez de “Quase eu”, bem que o teu blog poderia se chamar “Eu demais”, hehehehe!
    Mas como diria o Drummond,

    “Não, meu coração não é maior que o mundo.
    É muito menor.
    Nele não cabem nem as minhas dores.
    Por isso gosto tanto de me contar.
    Por isso me dispo,
    por isso me grito,
    por isso frequento os jornais, me exponho
    cruamente nas livrarias:preciso de todos(…)”

    Continue mandando ficha, aí, mano velho!

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