Didi

Pra minha vó Didi (24/01/1912 – 26/07/2011), com leve adaptação da letra de Tom Jobim.

“Didi”

Composição: Antonio Carlos Jobim, Aloysio de Oliveira, Ray Gilbert

Céu, tão grande é o céu
E bandos de nuvens que passam ligeiras
Prá onde elas vão, ah, eu não sei, não sei
E o vento que toca nas folhas
Contando as histórias que são de ninguém
Mas que são minhas e de você também
Ai, Didi
Se soubesses o bem que eu te quero
O mundo seria, Didi, tudo, Didi, lindo, Didi
Ai, Didi
Se um dia você for embora me leva contigo, Didi
Olha, Didi, fica, Didi
E as águas desse rio
Onde vão, eu não sei
A minha vida inteira, esperei, esperei por você, Didi
Que é a coisa mais linda que existe
É você não existe, Didi


Velho Almir

Um homem velho envolto em fumaça
Antigo como o carvalho que verga sob o peso das lembranças
Passarinho, enquanto passarão os outros pelo dia
Pequeno e grande índio de nariz pontudo.

Irmão do tempo, quebra e distorce suas dimensões
Viveu mais que seus dias
Remarcando o tempo pelo relógio do seu pulso
Cadenciando as estrelas pelo compasso do seu mundo

Um grande homem de um metro e meio
Gigantesco, antecipa os caminhos com um olhar arguto
Raposa, índio, passarinho
Reflexo dos olhos por traz do arbusto

Mago, druida, encantado
Lenda amazônica, mito
Verdade profunda do fundo das águas
Barrento, negro, puro
Igarapé nas veias, nuvens no teto

Um pequeno gigante apaga o cigarro
Noite sempre companheira
Ao lado a escultura de baganas
Pigarreia, tosse, geme e sorri
As costas doem, comprimidas para caber no mundo
A fumaça dissipa – ele vê.

Crônicas de um Crente – Viagem ao Extraordinário Mundo Coral

(Este texto eu escrevi em Abril 2007, na época em que a Tamar Jorge era regente do Coral Maranatha. )

A necessidade me fez sair do conforto da minha terra natal, a minha Congregação, e me aventurar por mares nunca antes navegados. A ousadia era me sentir um descobridor da época das Grandes Navegações, porém dotado de uma simples jangadinha…
Quando surgiu esta viagem, parei para pensar: será que conseguiremos chegar lá? E os monstros marinhos, será que eles existem? Tudo que eu havia vivido até então não me prepararam para este desafio.
A missão era simples. Preparar uma homenagem para aniversário do pastor. Teríamos a ajuda do Coral Maranatha.
Talvez você esteja se perguntando por que então tanto drama. Se você se perguntar isto é por que definitivamente não conheces a incrível capacidade de desafinar que tenho! Poucas pessoas semitonam com tanta desenvoltura.
Há pouco mais de dois anos, eu nunca tinha cantado. Apesar de gostar muito de música, minha relação com ela sempre foi de espectador. Lembro-me de um amigo meu que sempre que me via cantando em casa vinha com a mesma gracinha: “Tu gostas de cantar? Então porque não aprende?”. Claro que era justificado pelo sofrimento que eu o causava.
Foi nesta época que surgiu o Marcas de Cristo, grupo de louvor da mocidade. Me senti à vontade, pois oitenta por cento do conjunto era tão desafinado quanto eu. Trabalho árduo para a líder e para o Espírito Santo. Se você tem dúvidas quanto a se Deus faz milagres nos dias de hoje, o Marcas de Cristo é uma prova disto.
Mesmo assim, participar de um coral ainda era uma jornada ao desconhecido. A complexidade, o idioma absolutamente único. Afinal se comunicar entre tons-notas-oitava-abaixo-oitava-acima-tempo-altura é para lingüistas profissionais. A habilidade de cantar e respirar ao mesmo tempo é algo similar a assobiar e chupar cana. Chego ao primeiro ensaio. O meu cérebro faz um “crac”, para tentar assimilar o que estava sendo ensinado. Saio com aquela sensação de “onde foi que me meti”.
Tenho que fazer um aparte sobre os nativos desta terra recém descoberta: são pessoas boníssimas. O prazer, a dedicação, a alegria, a prontidão em ajudar. E que vozes… A música tem a condição de penetrar no fundo das nossas sensações. O louvor tem a condição de elevar nosso espírito até o Espírito de Deus, estabelecendo uma comunicação de amor. Despretensiosamente, em meio ao ensaio, sentia as lágrimas descendo pelo meu rosto.
A propósito, o resultado desta expedição foi satisfatório. Mas o melhor resultado foi ter ampliado o conhecimento. Esta terra desconhecida agora é uma terra também amada. Tá certo, eu ainda sou desafinado. Mas encontrei novas formas de adorá-Lo. E agora, me achando o Pero Vaz Caminha, escrevo dizendo que esta é uma terra abençoada, que receberá de braços abertos os viajantes. “Aqui, plantando, tudo dá!”.

P.S.: Aproveito para compartilhar um vídeo do coral, para que todos possam conhecer um pouco dele.