Filhote de gente

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Sobre o Arthur Deodato, meu mais novo sobrinho.

Chega manso, o pequeno.
Devagar.
Abre os olhos, maninho.
Filhote de gente,
mais que tudo, um presente
Dádiva que o Senhor concedeu.

Chega fofo, o pequeno.
Rei, craque ou milionário.
Ou só miniatura de Deodato?
Filhote de gente,
Flecha na mão do valente
Herança e galardão do Senhor*

Todo bicudo, o pequeno.
Como pode ser tão amado?
Ocupa no peito todo espaço.
Filhote de gente,
A distância faz que eu lamente
não estar aí com você.

*Referência ao Salmo 127 – destaque nosso.
“Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.
Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois assim dá ele aos seus amados o sono.
Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão.
Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade
.
Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava; não serão confundidos, mas falarão com os seus inimigos à porta”.

Carvalho Velho

1422609_4962616522217_1991530556_nEm maio de 2014, o meu pai faleceu. As letras ficaram embaralhadas, agarram-se nas pontas dos dedos e não chegaram mais ao teclado do meu computador. Emudeci pela perda do véio. Só agora desgarraram-se.

Carvalho velho, marcado
traga suas raízes que deixastes por aí cortadas,
lascas de ti tiradas
pedaços com pressa de partir.

Carvalho velho, sombreado
segurança na chuva, abrigo
referência de longe, caminho
Ninho de quem cedo quis voar.

Carvalho velho, caído
leve seu coração que não cabe – crescido;
mas deixe-nos a saudade
deixe-nos somente o bom lembrar.

33

33

Acho que pela primeira vez me sinto tranquilo. Talvez você não saiba como é difícil para mim chegar aqui, respirar fundo e sentir apenas paz.

Talvez seja a tal maturidade. Talvez seja mero resultado de uma vida harmonizada, onde as peças começam a estar bem encaixadas e funcionando bem. Trabalho, ministério, família, amor, atividade física. Tempo pra cuidar do corpo, da mente, e do espírito.

Mas, mais provavelmente eu esteja aprendendo a viver na base do orare et labutare, e aplicando-o a minha vida, não somente a minha hermenêutica. Calvino está certo.

Os calos das mãos somam-se a compreensão que tudo vem Dele, e que “todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”. Que Cristo cuida de nós e dos nossos, por causa do profundo amor que ele é.

Aos 33 estou bem, obrigado.

E a maior conquista que tive foi abrandar meu coração. Fica mais confortável para os que moram nele.

Didi

Pra minha vó Didi (24/01/1912 – 26/07/2011), com leve adaptação da letra de Tom Jobim.

“Didi”

Composição: Antonio Carlos Jobim, Aloysio de Oliveira, Ray Gilbert

Céu, tão grande é o céu
E bandos de nuvens que passam ligeiras
Prá onde elas vão, ah, eu não sei, não sei
E o vento que toca nas folhas
Contando as histórias que são de ninguém
Mas que são minhas e de você também
Ai, Didi
Se soubesses o bem que eu te quero
O mundo seria, Didi, tudo, Didi, lindo, Didi
Ai, Didi
Se um dia você for embora me leva contigo, Didi
Olha, Didi, fica, Didi
E as águas desse rio
Onde vão, eu não sei
A minha vida inteira, esperei, esperei por você, Didi
Que é a coisa mais linda que existe
É você não existe, Didi


Infância, bebês, e saudades.

Lembro da época que comecei a ouvir essa música. Da casa cheia, da minha irmã, minha querida irmãzinha que cuidou de mim de forma tão carinhosa. Meus irmãos, das brigas diárias entre nós que não diminuía o afeto (só na hora).

Lembro dos meu primos, os filhos do Tio Alberto, sempre conosco. Lembro da época em que meu gênio terrível e teimosia eram incontroláveis, e que eram proporcionais apenas à paciência de minha mãe.

Hoje, seleciono as mesmas músicas para o pequeno Afonso, filho da minha enteada, pensado também nos meus sobrinhos, que quase não os vejo.

Quero que eles, os pequenos todos, tenham uma infância ainda melhor do que a que tive. Que a música, a literatura e o afeto sejam parte do seu cotidiano. E que a beleza do sorriso banguela seja um símbolo – a vida sempre sorri para nós.

Velho Almir

Um homem velho envolto em fumaça
Antigo como o carvalho que verga sob o peso das lembranças
Passarinho, enquanto passarão os outros pelo dia
Pequeno e grande índio de nariz pontudo.

Irmão do tempo, quebra e distorce suas dimensões
Viveu mais que seus dias
Remarcando o tempo pelo relógio do seu pulso
Cadenciando as estrelas pelo compasso do seu mundo

Um grande homem de um metro e meio
Gigantesco, antecipa os caminhos com um olhar arguto
Raposa, índio, passarinho
Reflexo dos olhos por traz do arbusto

Mago, druida, encantado
Lenda amazônica, mito
Verdade profunda do fundo das águas
Barrento, negro, puro
Igarapé nas veias, nuvens no teto

Um pequeno gigante apaga o cigarro
Noite sempre companheira
Ao lado a escultura de baganas
Pigarreia, tosse, geme e sorri
As costas doem, comprimidas para caber no mundo
A fumaça dissipa – ele vê.

Negro Encontro

Em 1987, quando o “Negro Encontro” foi lançado, eu tinha 07 anos. Não sei bem quantas vezes o li e reli, pois a sua escrita forte, pulsante, sempre me atraía. A simbiose de prosa e verso permeando-se mutuamente, dava novos sentidos para as palavras, transmutando-as em algo a mais, algo captado apenas pela sensibilidade. Se hoje escrevo, não é porque quero, mas por estar nos genes. E sinto um prazer pueril quando, agora adulto, alguns amigos me chamam de Negão, da mesma forma que chamo o meu velho.
A saudade que carrego desde que saí de casa, muito cedo, é a certeza do meu amor pelo Negão Pai, Matão, dando sentido completo em embandeirar o Filho do meu nome.

“Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar.” (Espelho – João Nogueira)

EPÍSTOLA UNIVERSAL DO NEGRO TU

“Eu sou aquele, daqueles habitantes de um mundo paralelo nascido na mente, da pele escurecida que tanto pavor lhe causa. Aquele que, provavelmente hoje mesmo , você encontrou na sarjeta e, qual Pilatos, utilizou mais uma vez o vaso sanitário.
Sabe ?! eu sou esse mesmo que você “aceita” sem se comprometer. Essa negação de cor que, das trevas, você estereotipa como indesejável. Esse mesmo , que sujará sua raça se deflorar sua filha e que já nasceu tendo de provar que é melhor (?!…)
Eu sou aquele, isso e esse mesmo que “carinhosamente” você chama de negrinho. Sabe ?! o trombadinha que você contribuiu para que eu fosse. Esse que suja sua consciência (sic), por se parecer muito com aquela “pretinha”, que seu sêmen emporcalhou, agorinha mesmo, na cozinha de sua casa.
Sou eu, aquele mesmo, que teve de engolir os seus deuses e engulhar suas verdades como se fossem minhas, no total desrespeito que sempre caracterizou as nossas “relações”.
Sou, lembra-se ?!, aquele passageiro dos porões do navio negreiro, que você trouxe para construir esta nação. A força bruta, a tração, que lhe impulsionou a desonestidade e o transformou em senhor. Sou eu mesmo, aquele soberano africano, escravo do marginal europeu que a avareza despejou nos mares.
Eu sou aquele, marcado pelo chicote do analfabetismo, que você finge amar quando necessário. Aquele “pardo” de “alma branca”, que é o “negro mais branco do Brasil”. Aquele mesmo que “suja na saída” e que “é negro, mas… é bom”.
Eu sou tudo isso, que você me fez, e não há retrocesso. Mesmo porque as feridas na alma cicatrizam com maior dificuldade que as marcas das chibatadas, que você me deu. Por isso, jamais haverá retrocesso nesse desamor implantado por você em minha negritude.Jamais retrocederei ao ventre-livre, que a sua eterna hipocrisia me presenteou. E, muito mais ainda, jamais precisarei das suas “leis áureas” ofuscantes para ser realmente livre.
Eu sou tudo isso e muito mais, que a estreiteza de sua visão é incapaz de alcançar. Sou eu mesmo, aquele que traz Palmares no peito e toda a lição de liberdade do negro Ganga Zumba. Aquele mesmo que não acredita na sua aparência de branco, porque aprendeu com os mestres astrais, cultuados na minha “ignorância espiritual”, que tudo no mundo visível em que vivemos é uma interligação precisa e harmoniosa de forças, não existindo por si mesmo. Sabe ?! a minha, a sua, a nossa cor não existe além de nossas próprias limitações de homens. A sua, a minha, a nossa superioridade não se sustenta além das três dimensões a que estamos aprisionados. A própria dualidade, tão necessária para nosso equilíbrio , é a Unidade Suprema no zero absoluto.
Eu sou aquele e a mim basta sê-lo. O negro TU, apóstolo de minhas próprias verdades. O guardião do templo de minha negritude. O mais-que-imperfeito ser sem ser mentalmente divino. Um ser poeta, perfeito na sua imperfeição. Um deus-homem, um homem-deus, um ser-menino.”

Alcir Matos (o pai).