SQN – Só QUEM não

Acho interessante o uso do SQN no fim de frases irônicas. SQN.

Pelo que me lembro, a utilização desta sigla começou a uns 2 ou 3 anos atrás, com a popularização de redes sociais. Mas penso que é um indicador de algo muito profundo. É o símbolo da nossa incapacidade de compreender um texto.

Só QUEM não consegue ler o texto, perceber as nuances do que está sendo construído, precisa da evidência que estão sendo irônicos.  Isso é algo que deveria ser percebido através da nossa sensibilidade.  Lamentavelmente,  se não colocar a dita sigla, como uma placa sinalizando curva perigosa, derraparão na compreensão do dito.  É a prova de que não somos bons leitores.

Só QUEM não escreve textos precisa lançar mão deste recurso. O sabor do texto está na conversa com o leitor, que vai construir o seu entendimento a partir do diálogo autor-texto-leitor, onde o próprio texto será acrescido da compreensão do leitor.  De certa forma, o texto só é do autor até chegar no papel. De lá em diante, o leitor se apropria dele, e vivencia-o.

E, cá entre nós, é um recurso feio. Não SOQUE não a nossa língua.  Ela é agredida com a feiura desta expressão.  E o papel de desconstruir o belo é contribuída pela obviedade dela. É explicar a piada; se o fizermos, matamos o riso. A beleza do texto está no surpreendente. A graça do texto é a surpresa.  O “SQN” é o auto-spoiler. Gol contra total. É o trailer que conta o final do filme.

Sabemos Que Nada disso seria assim se desde pequenos aprendêssemos a gostar de ler. Por exemplo, o humor leve do Fernando Sabino e Luis Fernando Veríssimo; ou a ironia fina de Machado de Assis, com certeza nos vacinaria. Criaríamos robustos anticorpos para resistir ao uso viral do “SQN”.

Sabe, Queridos, Navegar na net é bom. Aproxima, encurta distâncias, democratiza a comunicação, etc e tal. Mas faça um favor a si mesmo. Saía da rede, abra um bom livro, e aproveite a viagem.

Uma mente precisa de livros como uma espada necessita de uma pedra de amolar se manter afiada.” – Lannister, Tyrion*

 

*personagem das Crônicas de Gelo e Fogo, George R.R. Martin.

As Falácias de Jean Wyllys

Jean-Wyllys-Jogo-do-Poder

Em um vídeo que circula na internet, com a entrevista que o Deputado sr. Jean Wyllys concedeu ao programa Jogo do Poder da CNT, com o jornalista Ricardo Bruno, o deputado federal pelo PSol do RJ se dispõe a contra argumentar posicionamentos adotados pelo pastor evangélico Silas Malafaia. Deixo claro que não concordo com todos os posicionamentos do pr. Silas, mas o sr. Jean consegue cometer inúmeras falácias no seu pronunciamento. Neste post utilizamos a definição de falácia como “argumento logicamente inconsistente “, um recurso utilizado para falsear e convencer os mais incautos. Mas que não resiste a mera observação criteriosa dos mesmos.

Com o intuito de demonstrar claramente estas falácias, segue o vídeo que me refiro. Peço que você o veja antes das minhas considerações. Assim teremos dado ampla voz a outra parte do debate. Em seguida vou tecer meus comentários.

LINK VÍDEO –  CLIQUE AQUI

0:38 – Jean chama Silas de “intelectualmente desonesto” – Falácia ad hominem;

No início da sua fala, o deputado começa com ataque pessoal. Esta falácia tem por objetivo tirar a validade do argumento a partir da invalidação do emissor do argumento. Desta forma, fica implícito que todo argumento do pr. Silas já será desonesto, deturpado, e sem mérito para análise. Para justificar esta classificação de “intelectualmente desonesto” ele irá incorrer em outra falácia.

0:54 – “Desqualificações públicas passam necessariamente pelas igrejas e pelas interpretações fundamentalistas da bíblia ”  – Falácia de Distorção de Fatos e Falácia do Espantalho (é um argumento em que a pessoa ignora a posição do adversário no debate e substitui por uma versão distorcida e exagerada, e que representa de forma errada esta posição)

Basicamente, o sr. Jean vai tentar ligar a violência dura contra os homossexuais com a afirmação de que homossexualidade é pecado. Não existe nenhuma nenhuma ligação. A pregação do evangelho não pressupõe a violência, antes a paz, a reconciliação de Deus e o mundo através da morte e ressurreição de Cristo, e Nele termos TODOS os pecados perdoados e nascermos de novo como filhos de Deus, em um processo de santificação que findará apenas na glória. E esta é a posição mais ortodoxa possível das escrituras.

Eu não tenho a menor ideia de onde o dep. Jean Wyllys tirou a ideia de desumanização do homossexual a partir da igreja cristã (1:24). Nunca o cristianismo se posicionou com a afirmação de que os homossexuais não são humanos, ou são uma subcategoria. Falar que o ser humano é pecador não o desumaniza, antes confirma a sua humanidade de filho de Adão, e carente de Jesus.

Mesmo que eu considere a possibilidade remota de que alguém que se diz cristão tenha cometido um ato de violência dura contra um homossexual, utilizando como justificativa a bíblia, isso não o faz porta voz da Igreja. E detalhe, pessoalmente não conheço nenhum caso.

Essa distorção dos fatos mostra apenas a falta de conhecimento teológico do sr. Jean, ou um premeditado ataque à Escritura com o interesse de desqualificá-la.

1:55 “Reconhecer que a bíblia não pode ser tomada ao pé da letra” – Falácia de Petitio Principii ou Petição de Princípio

O sr. Jean comete a falácia de petição de  princípio ao afirmar como fato incontestável que a bíblia é um livro comum com mero valor histórico, logo passível de uma interpretação livre.

Porém, isto não é uma fato inconteste. A visão reformada é que a bíblia não é um mero livro comum de valor puramente histórico, mas sim é a Palavra de Deus, inerrante, infalível, inspirada verbal e plenariamente. Logo ela não pode ser interpretada livremente  mas seguindo os critérios da hermenêutica, e seu conteúdo fundamental é tão válido para uma civilização de 3 mil anos atrás quanto será válida para uma civilização 3 mil anos no futuro, pois se trata de valores e princípios eternos.

2:32 “Quem conferiu autoridade científica a Silas Malafaia?” – Novamente, Falácia ad hominem.

Para desqualificar o argumento, o sr. Jean apenas questiona a autoridade de Silas sobre o assunto. Curiosamente, o pr. Silas é psicólogo por formação, e o sr. Jean tem sua habilitação em Jornalismo e Letras. Pessoalmente penso que um psicólogo tem maior embasamento científico em comportamento do que um jornalista ou professor de letras. Verdadeiro tiro no pé, em termos de argumentação.

3:05 –  “Implicações genéticas” – Falácia de Apelo à autoridade Anônima

Alguém poderia me citar objetivamente a fonte desta afirmação? Qual foi a pesquisa, feita onde e por quem, reconhecida publicamente e  pela comunidade científica internacional que PROVA esta afirmação?

Ninguém até hoje provou esta afirmação. E o ônus da prova cabe as que afirmam a causa genética da homossexualidade. Lamentável a utilização desta falácia por um senhor que se apresenta como “homem de ciência”.

E o pior é que ao invés de apresentar dados concretos a “prova científica” da afirmação do sr. Wyllys é um dado empírico, baseado em sua experiência pessoal.  Isto é um excelente exemplo de como NÃO se fazer ciência: “Não tenho provas, mas comigo aconteceu assim, logo essa é a realidade final dos fatos”.

3:39 -“A igreja já evocou argumentos bíblicos para negar os direitos aos negros ”  – Falácia de Apelo ao Preconceito, e Falácia de Definição muito ampla, e novamente Falácia de Distorção dos Fatos

É muita falácia junta!  Indo por partes: É falácia de Apelo ao Preconceito por criar uma ligação inexistente, uma vez que não conseguiu provar a questão genética da homossexualidade, com o preconceito étnico, que tem claramente uma definição genética. Dessa forma, pretende-se atrair a simpatia à causa Homossexual, uma fez que o preconceito étnico é nitidamente rejeitado. E com isso, cria-se uma antipatia à Bíblia, novamente taxada de retrógrada e datada.  Mas, repito, é um desvio do assunto em questão a té que se tenha PROVAS com dados CONCRETOS sobre a questão genética da homossexualidade.

Definição muito ampla é por que os critérios utilizados para esta abordagem não tem a menor especificidade. Cadê o conceito de discriminação racial e escravidão como consta na bíblia? É um anacronismo forçado, sem relação com o que realmente á apresentado nas escrituras. Por exemplo, a escravidão registrada na bíblia não se dava por dominação de outros povos, como vimos em períodos mais recentes da história, e sim normalmente por dívidas, por um determinado tempo, com restituição da liberdade e bens no ano do Jubileu, ou seja é totalmente diferente do conceito de escravidão da idade média e moderna. Sem contar que o movimento em prol os diritos civis dos negros partiu da própria igreja, com homens como o Pr. Martin Luther King. Ou seja, só quem pode interferir na crença  cristã é a própria igreja, seguindo o princípio da fé reformada que diz que a igreja sempre está se reformando. A igreja, não movimentos externos a ela, movimentos estes que não tem o menor embasamento bíblico e teológico.

4:42  – “Cada um tem direito de crer no que quer” – Falácia do Estilo sem substância

Neste momento o sr. Wyllys beira o humorismo. Começa afirmando que cada um pode crer ou descrer no que bem entender, mas desde que esta crença esteja de acordo com o que ele julga ser o correto. Ou seja, qual seria essa liberdade de crença? Portanto, o mesmo  diz algo totalmente sem sentido, utilizado apenas um formato palatável de cordato e coerente.

4:55 –  “Falo como homem de ciência” –  Novamente Falácia de Apelo à autoridade Anônima

O sr. Jean neste momento se posiciona como autoridade científica, e baseado nesta autoridade acadêmica ele irá representar a opinião do universo acadêmico, mas consegue apenas demonstrar  um profundo desprezo pelo conhecimento acadêmico, uma vez que este é dividida em áreas de atuação, e quando mais profundas, mais específicas. Mesmo que alguém tenha um pós doutorado  em medicina, isto não o capacita para construir um prédio – fatalmente o CREA iria embargar a obra. De igual modo, o Ministro Joaquim Barbosa, presidente do nosso STF, não se aventuraria em realizar uma operação cardíaca em algum paciente, pois o conhecimento que ele tem é específico, voltado a leis, e não à medicina.

Porém, o sr. Jean, que é jornalista e com formação em Letras, se aventura áreas do conhecimento totalmente fora do seu campo, se arvorando uma sapiência que não possui! O sr. Jean Wyllys é absolutamente leigo em teologia, e acha que o domina este assunto, mas mostra a total ignorância quando tenta responder a questão sobre Levítico. Ele afirma que: “a bíblia foi escrita em aramaico, traduzida para o grego e depois para o latim (…)”. Qualquer aluno de escola dominical sabe que língua predominante no Velho Testamento é o hebraico, e o novo testamento não foi traduzido para o grego, ele foi ESCRITO em grego, com a exceção do Evangelho de Mateus. As traduções utilizadas pelos protestantes não tem sua origem na Vulgata latina, mas nos textos com suas línguas originais.

5:23 – “A palavra abominação não tinha o sentido que tem hoje” – Novamente de novo Falácia de Apelo à autoridade Anônima

Hahã, então qual seria este sentido à época, e seu equivalente moderno? Baseado em que ele faz essa afirmação? O seu mestrado em letras não foi em hebraico, muito menos em aramaico, segundo a ideia de texto original do sr. Jean.

6:30 – “A gente mataria mulheres que não casam virgens (…)” Falácia do Espantalho.

Mas uma vez o sr. Jean demonstra total ignorância teológica, com o intuito de desqualificar a bíblia. Todo cristão sabe que o Antigo Testamento aponta para o Novo, e que todas as leis cerimoniais são para ensinar aspectos morais e a obra redentora de Cristo.  Por isso não sacrificamos animais, pois ele apontava para o sacrifício de Cristo, consumado no madeiro. Porém as leis morais são leis eternas. Deus continua reputando por pecado tudo aquilo que Ele  reputou no passado, como no caso específico em questão, a prática da homossexualidade.

No final da entrevista, mais do mesmo. Finaliza atacando a pessoa do pr. Silas(ad hominen), insinuando um interesse monetário na pregação contra a prática homossexual, o que é absolutamente irracional, pois sabe-se que seria muito mais viável financeiramente, caso o interesse fosse esse, pregar pró homossexualidade, pois seria uma fatia  nova e grande no mercado.

Minha opinião pessoal em vista de tudo isso, é que raramente se consegue ver tanta ignorância, falácias, arrogância, deturpações e má fé em apenas 7:33 .  Talvez haja um recorde para isso.

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