Sobre a Catarina

Minha cachorra é doida. Absolutamente tan-tan.

Tá certo, é de um jeito meigo, brincalhão, meio ciumento. Mas é doida de pedra.

Comprei a Catarina em um petshop perto de casa. Passei por lá para comprar ração para um poodle que tinha na época, e que perdeu-se nas brenhas da Vila União. Quando a vi, fiquei encantado com ela. Rolou uma empatia imediata. Voltei pra casa com a minha vira-lata.

De acordo com o cara que me vendeu ela é mestiça de labrador com fila brasileiro. Herdou dos labradores um pelo preto e brilhante como de foca, e dos filas um rajado nas patas e em partes do rosto. Conta a lenda que puxou a parte negra dos Matos, e o loiro dos Pimentel… diz a lenda.

Não cresceu tanto quanto eu imaginava. Ficou com um porte médio e ágil. Incrivelmente ágil. Seus saltos, motivados por um pedaço de pão ou por um gato no muro, alcançam uma altura impressionante.

Depois de um dia em que a levamos para tomar um banho de mar, ela desenvolveu um jeito impar de se conduzir pela guia. Quando ela não que ir para um lugar, morde a ponta da guia e puxa pro outro lado.

Tem um ódio mortal ao portão do meu sogro. Basta ele abrir e começa a “latição” . A pobre da cachorra fica rouca de tanto latir indignada, e só para quando fecham o portão.

Mas o melhor dela é o jeito. Tu consegue imaginar alguém hiperativo, com o dedo na tomada, depois de beber uma coca de 2 lts, três garrafas de café e duas colheradas de pó de guaraná? Pois é. É isso aí.

Corre, brica, salta, rola, late. A vida nela é abundante. É com a sua velocidade que ela empurra o sol e impede que ele pare no meio do caminho.  É uma machiguenga*.

“Tenha ânimo!”, ela me diz com seu focinho gelado, quando estou meio estressado. “Tá tudo bem. Eu estou aqui”.

É… fica sempre tudo bem, quando deixamos a nossa vida ser cheia de vida.

*machiguenga é um povo indígena da amazônia peruana, retratados no excelente livro “O Falador” de Mario Vargas Llosa. Nesta obra, o autor afirma que este povo é nômade por acreditar que se eles parassem de andar, o sol também pararia sua caminhada diária.

 

Sobre Arsène Lupin

Arsène Lupin é um gato. Ganhou seu nome em homenagem à personagem de um livro de Maurice Leblanc, um ladrão de casaca, um gatuno, condizente com a malandragem de quem já nasce de bigode.

 

É curiosamente audaz, talvez por conta de sua infância compartilhada com um cachorro, habitante da mesma casa. Pêlo farto, herança de sua ascendência persa, com a monotonia preto e branca quebrada apenas pelos olhos verdes, de um verde semelhante a fundo de igarapé.

 

Desfilava pela sala com a certeza felina de que nós, humanos, existíamos para satisfazer suas vontades, como gênios da lâmpada em carne e osso. Provocador, o mini tigre tinha por passatempo passear nos muros das casas com os maiores cães, só para ver o desespero impotente dos inimigos. Não que ele fosse mau, ao contrário, tinha uma fidelidade canina (!?). O melhor companheiro para as horas tristes, com um ronronar que soava como: “está tudo bem, agora”. Uma bola de pêlos que falava com os olhos, dividindo as dores e alegrias de ser da família.

 

Ainda filhote, passou maus bocados. Uma coceira na orelha esquerda transformou-se em grave alergia ao ser tratada com andiroba, dando-lhe a aparência do Duas Caras dos quadrinhos. Miúdo, pensávamos que um camundongo lhe daria uma surra, se houvesse encontro entre ambos.

 

Mas cresceu. Em sua fase adulta era o maior e mais bonito gato da redondeza. Lamentavelmente, cada dia que passava sua personalidade assemelhava-se mais a minha. O mesmo ar blasé, o mesmo cinismo, o mesmo espírito nômade . O céu estrelado foi a única testemunha da sua partida. Por causa dos seus hábitos boêmios, demoramos a sentir sua falta – ele breve voltaria, com o ar de ressaca de quem virou anoite na orgia. Mas não voltou.

 

As semanas passaram-se sem que o vazio deixado por Arsène diminuísse. Senti raiva pela ingratidão da partida sem despedida, da falta de contato, a mesma ingratidão que cometi com meus pais. A tristeza de ter sido deixado para trás.

 

Não sei se um dia Lupin voltará. Não sei nem mesmo se ainda vive, pois já faz um ano que ele saiu de casa. As vezes alguém me diz que viu um gato parecido com ele na rua. Penso na hora: “gato filho-da-mãe!”.
Mas até hoje não consegui ter nenhum outro gato, por que esse lugar é dele. Acho que também tenho uma fidelidade canina.