Liberdade

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Voe, minha alma,
voe livre.
Pois já não tenho amarras.
Troquei-as por novas asas
quando o perdão me alcançou.

Voe, minha mente,
voe aberta.
Tirei o cabresto e o freio
religioso, estreito,
quando a Graça me bastou.

Falem livres, sejam livres.
Minha voz e minha pena,
minha mente e meu poema
Não parem na barreira
Não se contenham pela contenda
de quem nunca O encontrou.

“Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” – João 8:36

A Rosa

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Venha pra casa,
rosa machucada.
Foi a vida,
essa coisa estranha à ser vivida.

Venha sem medo, florzinha.
Pois ele congela os passos,
quebra os laços,
pois ele te torna arredia.

Venha sem culpa, menina.
Não mais há condenação,
Nem há pecado
Maior que o preço que foi pago.

Venha pra casa,
rosinha.
Foi só a vida,
essa coisa estranha à ser reescrita.

Filhote de gente

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Sobre o Arthur Deodato, meu mais novo sobrinho.

Chega manso, o pequeno.
Devagar.
Abre os olhos, maninho.
Filhote de gente,
mais que tudo, um presente
Dádiva que o Senhor concedeu.

Chega fofo, o pequeno.
Rei, craque ou milionário.
Ou só miniatura de Deodato?
Filhote de gente,
Flecha na mão do valente
Herança e galardão do Senhor*

Todo bicudo, o pequeno.
Como pode ser tão amado?
Ocupa no peito todo espaço.
Filhote de gente,
A distância faz que eu lamente
não estar aí com você.

*Referência ao Salmo 127 – destaque nosso.
“Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.
Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois assim dá ele aos seus amados o sono.
Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão.
Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade
.
Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava; não serão confundidos, mas falarão com os seus inimigos à porta”.

Carvalho Velho

1422609_4962616522217_1991530556_nEm maio de 2014, o meu pai faleceu. As letras ficaram embaralhadas, agarram-se nas pontas dos dedos e não chegaram mais ao teclado do meu computador. Emudeci pela perda do véio. Só agora desgarraram-se.

Carvalho velho, marcado
traga suas raízes que deixastes por aí cortadas,
lascas de ti tiradas
pedaços com pressa de partir.

Carvalho velho, sombreado
segurança na chuva, abrigo
referência de longe, caminho
Ninho de quem cedo quis voar.

Carvalho velho, caído
leve seu coração que não cabe – crescido;
mas deixe-nos a saudade
deixe-nos somente o bom lembrar.

Ode à Ponte que Partiu

Nas vias embarroadas
abarrotam-se empoeiradas
pontes de várias marcas
como a fronte de Caim, marcadas.

Na confusão dos sentidos trocados
o que era unir tornou-se ilhado.
Material assim desperdiçado
ferro e concreto para panela de barro.

Enganam-se, portanto, as pontes.
Não há rocha fundo do rio.
Por que firmar sobre afundado, e não nos montes?
Como partir o pão sobre tanto desvario?

Ser corpo ficou no esquecimento
sepultado pelo das pontes cimento.
Ser um só povo será ignorado
No das pontes ferro armado.
Senhor Jesus relegado a visagem
Na das pontes ilusória paisagem.

Não sejas ponte, sejas ovelhas
Não sejas esponja, sejas fonte.
Não sejas grupo, sejas povo.
Não sejas panela, sejas vaso.

E com fervor a oração eu faço:
Que o sentido de Evangelho fortaleça laços
entre todos com o sangue lavados.
E a ponte, velha e enferrujada ponte,
que vá pra ponte que partiu e se desmonte.

 

Percepções

Meus sentidos foram se abrindo. Gradualmente, sem alarido, sem esperar. Como descrever o som ao surdo? Sentindo a vibração causada por cada nota. Sentido que cada nota encontra o eco no interior do ser. A certeza do certo confirmada pela alma – escavação arqueológica do espírito.

Pulsa, bate, ecoa, ressoa.

Milagre da união de notas avulsas, metamorfoseando-se em melodia. Existe música, sons em poesia. A Voz guia os passos de quem ainda não vê. A Voz firme, cálida que pronuncia seu nome, irresistível. Estranhamente familiar, mesmo a quem nunca a ouviu antes. A Voz geradora de vida, que faz o coração bombear, que abre os nossos pulmões no primeiro dia, e o fechará no último. A percepção do infinitamente belo.

Cheiros me confundem, apontando para sabores não descortinados pelo palato. Cheiros que vão marcar a trajetória, depois serão “start” da memória. Gostos. Dias de mel, outros de ervas amargas. Gosto do amargo realça o doce.

Ainda na câmara escura. Tato. Eu sinto, logo?…
Tocar o outro, saber que a vida também está ali.
Tocar o outro, quebrar as fronteiras entre o eu e o tu.
Ser tocado, como é bom chorar acompanhado!
Tu me entendes? Sabes que existe alguém além de ti? Quero quebrar esta fronteira maldita que deixa a todos entrincheirados dentro de si.
Eu sinto, logo?… Sinto muito por sentir tanto. Sinto muito por sentirmos tão pouco.

O mundo cresce na medida em que as percepções se expandem. Posso viver sempre no quartinho escuro, fechado em mim. Ou posso abrir a porta. Mito da Caverna de dentro de nós. Tudo é mais. É maior.

Tenho que sair do quarto e ver a rua. Outros andam as tontas como eu. Outros tontos se escondem em baixo da cama. Tenho que sair. Ruas, bairros, cidades. Tenho que sair. Já não basta a rua, preciso da Lua.

Vejo vultos. Imagens imprecisas, turvas como os meus olhos. Tudo está lá, eu que não vejo. TV preta e branca, antena meio torta. Por que não ajeito? De que jeito, se não me percebo?
O mundo não é preto e branco, nem em duas dimensões. O mundo não é uma tela de pintor daltônico.

Ver.
Luz que clareia o dia.
Quero ver.
Forte como o meio dia.
Encandeado, ofuscado no primeiro instante.
Maravilhado pela aurora.

Ver.
Tudo fica claro.
Não em si, mas nele.
Não posso ver o sol, mas vejo tudo por ele.
Como pude ser tão cego!
Tão voluntariamente cego.

Ver.
Delicado como o luar
Refletindo uma outra glória,
Mais distante.
O belo, o puro, o digno.
Luar.

Ver.
Triste como o ocaso.
A morte e esperança do novo dia.
Amado como o ocaso.
Promessas do que a noite trará.

Palheta das infinitas cores
Obra de arte nunca concluída
Vida.
Cada segundo revelando novos tons
Aquarela.
Cada instante vivido, puro impressionismo.
Impressionando-nos pela beleza sem igual.

Vida Bela, aquarela.
Somos co-pintores dela.

TTTRRRIIIIIMMMMM!!!!!! O despertador toca. Acorda, vai escovar os dentes. Acorda. Abra seus olhos. O dia já começou.

(Re-postagem de um texto escrito em 2008, sobre meu processo de conversão)

Por onde anda a Poesia?

Sou um dos caras mais desatualizados da música gospel. Realmente, não curto muito as músicas que ouço nas rádios evangélicas.

Basicamente, tem três motivos:

1) Não concordo com a visão de Reino impregnada em várias delas. Nesse sentido, irmãos como o Pr. Ciro, que tem vários posts sobre esse assunto, e o Yago Martins, que fala com muita propriedade em um vídeo que vc pode ver na página “vídeos” deste blog (meio óbvio, né?). Sugiro inclusive que deem uma olhada também no Cante as Escrituras.

Quem sabe um dia resolvo me aprofundar no assunto e escrever sobre alguns desses “hinos”?

2) São muito repetitivos. Os caras conseguem fazer uma música com 7 minutos de duração e 3 frases! Haja paciência. Se eu gostasse de mantra eu era Hare Krisna, hindu, ou algo do gênero.

3) São feios mesmo. Pobres poeticamente, de harmonia, de melodia, de tudo. São ruins, então simplesmente não gosto.

Talvez você discorde de mim, e até fique com raiva. Não fique. É só a minha opinião, não quero que você se sinta constrangido(a) a concordar comigo.

Mas, na boa, quando ouço algumas músicas evangélicas mais antigas (e nem precisa ser tão antigas), e comparo com algumas de hoje, eu me pergunto: Por onde anda a poesia?

Palavras brincam conosco
Danças, folguedos e passeios
Troca de entendimento, o oposto
Do dito e desdito no solfejo.

Por onde anda a poesia?
Onde estará a sua trilha?
Nas canções ouvidas não a encontro.
Talvez apenas triste rima.

Queria louvá-lo eternamente.
Queria cânticos que subissem lentamente.
Sem a aridez jornalesca do muito dito,
Nem o mantra hipnótico repetido.

Por onde anda a poesia?
Onde estará a sua trilha?
Nas canções ouvidas não a encontro.
Talvez apenas triste rima.

Doce melodia que encanta,
Cantando minha alma se levanta.
Prazer brotado dos sentidos
Voltados para o Teu amor infindo.

Por onde anda a poesia?
Onde estará a sua trilha?
Nas canções ouvidas não a encontro.
Talvez apenas triste rima.

Trôpego poeta da escrita.
Pena de escritor com pouca tinta.
Não dos meu lábios surgiria
Os versos que minh’alma louvaria.

Por isso peço a ela
À só ela, amada poesia
Volte aos louvores ao Senhor
Sofro desde sua partida.


 

Bônus: Uma poesia de Sergio Lopes.  Ouça, vale o clic.

Trinta e Um


(Reflexões sobre o o meu 31º aniversário)

Trinta e um é uma onomatopéia.

trin-tei- hum

trin-tei-hum

trin-tei-hum.

O trem passa marcando o ar

Na monotonia rítmica das engrenagens.

Marcha certa de quem não perde o rumo.

Trinta e um é um batuque.

trin-tei- hum

trin-tei-hum

trin-tei-hum.

Negra herança aquece o sangue,

Pulsa nas veias.

Grito sufocado dos palmares.

Entoado, cantado,

Riso rasgado do rei-escravo, hoje  livre.

Libertado na vida e morte e vida do Senhor.

Trinta e um  é um sonho.

O sonho de dormir criança

E acordar adulto.

É o começo da maturidade.

É o TRINNN de acordar pra vida.

E um do que ainda será.

Poeminhas de “Pé Quebrado”

Comecei a usar a expressão poeminhas de pé quebrado com uns sete anos, mais ou menos, quando li pela 1ª vez o “Menino Maluquinho”, do Ziraldo. Quem não conhece essa obra genial, pode conhecê-la clicando aqui.

Era um achado em termos de definição. Encaixava-se perfeitamente com a falta de métrica e rima dos meus versinhos.

Acabou virando uma proposta “conceitual vanguardista pós moderna dadaísta de não rima“.  Ou seja, de  “pé quebrado”.

Por isso, quando fores ler um deles, leve em consideração a ideia:  igualar-se em talento com um personagem infantil.

(clic para visualizar melhor)

Simples

Foto By Alcir Filho
Simples.
Na simplicidade Tu te revelas.
Direto, inegável, inconfundível Senhor.
Surges por trás das flores.
Num olhar carinhoso,
Na pureza do afeto.
no abraço.
De onde viria a beleza, senão de Ti?
Como eu poderia viver sem Tua vida?
Ponho meus pés na areia
contemplo o mar.
Espelho frágil do Criador.
Seu Espírito é brisa, Sua voz é muitas águas.
Simples.
Tu te afastas das pomposidades
Rejeitas o pré-formulado.
Ainda assim, fabricamos espetáculos
Mesquinhos aos teus olhos.
Para ti, basta o espírito e a verdade.
Ensina-me Senhor, o teu singelo caminho.
Quebranta a minha alma,
permita-me oferecer-te a mim.
Não tenho nada além disso.
De fato, nem tenho isso.