Adeus, inocência?

Como lidar com a contante perda de confiança nas pessoas?  Essa questão tem me martelado constantemente de uns tempos pra cá.

Reconheço a minha tendência à inocência. Quero acreditar que as pessoas podem ser decentes, que é possível viver uma vida digna. Quero acreditar que vale a pena ser honesto, que vale a pena ser tentar ser justo. Quero acreditar que o “mundo é bão, Sebastião”*.

Daí a surpresa ao descobrir que as coisas não são como deveriam ser. Elas são como são, e são constantemente feias.

Hoje já entendo por que tem tanta gente amarga no mundo. As pessoas são ruins, e as vezes fazem o mal gratuitamente. E isso é assustador, por não ser raro. É difícil manter o coração funcionando direito depois de algumas punhaladas.

Quando  cultivamos determinados tipos de valores, é difícil e demorado para perceber isto. Sabe aquele tipo de gente que se emociona vendo “Homens de Honra”** pela milésima vez? Pois é.  Sou esse cara, que não sabe nada, inocente,*** e tem dificuldade de adaptação.  A forma como enxergo a vida está em desarmonia com os “fatos da vida”.

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Confio em laços de amizade. Mas  não consigo mais quantificá-los, não sei quantos destes ainda tenho.  O que vejo é que eles são facilmente desatados, e substituídos por algum tipo de utilitarismo – você só serve enquanto serve para algum fim.  A fidelidade canina das amizades eternas, sólidas e inegociáveis, não sei onde colocar.  A quem dedicá-la.

Confio em palavra empenhada. Mas não confio nas pessoas que as empenham, frequentemente.  São poucos homens de caráter que conheço. A ideia de ter caráter parece-me ter caído em desuso.

Acredito em vida pautada em ideais. Mas tenho me deparado com a mesquinhez e a ganancia sórdida. Passa-se por cima de tudo e todos, desde que se consiga o objeto do desejo.

A questão permanece: como lidar com isso?

A inocência, sempre que me deixa, me torna mais amargo, fechado e cruel.
A inocência, sempre que me deixa, me tornar mais parecido com aqueles que eu desprezo.

O que fazer? Assumir que a  minha visão é pueril e inadequada para vida adulta? Aceitar que “as coisas são assim mesmo”, e me adequar ao modus operandi?  Dizer, simplesmente, “Adeus, inocência”?dvd-homens-de-honra-robert-de-niro-cuba-gooding-jr_mlb-f-3338751391_102012

Ou insistir? Manter os valores, a honra, mesmo indo contra a correnteza?

“Droga, cozinheiro, mexa-se. Eu quero os doze passos!”****.

A tentativa de ser moral em meio à imoralidade é inocência, eu sei. Mas por enquanto não conseguiria ser de outra forma.

Digo, então, “Vai ficando, inocência. Vai ser doloroso, mas é o melhor pra gente”. Preciso ser diferente daqueles que desprezo. Apego-me à ela para preservar a minha alma.

 

 

* Citação de O Mundo é Bão, Sebastião! – Nando Reis
**Men of Honor (Homens de Honra no Brasil e em Portugal), é um filme norte-americano de 2000, dirigido por George Tillman Jr., com roteiro de Scott Marshall Smith e trilha sonora de Mark Isham. É baseado na história verídica do Sargento Carl Brashear. No elenco, Cuba Gooding Jr., Robert de Niro, Charlize Theron e Powers Boothe, entre outros. (dados Wikipédia)
*** Frase icônica de Cumpadi Washington
****Citação do filme referido acima.

Aldo, Ronda e os que nunca lutam

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Não existem mais imbatíveis. Na realidade, penso que eles nunca existiram, são entes exclusivos do nosso desejo  de idealizar heróis.

Porém, para os que acompanham MMA (Artes Marciais Mistas), até pouco tempo haviam atletas invencíveis. Mas eles foram, um a um, caindo. Tinham sobrado apenas Ronda Rousey e José Aldo. Tinham.

Para ser claro, não pretendo fazer um comentário sobre o MMA. O Ponto é como a nossa cultura se manifesta nestes fenômenos, e o que podemos aprender com estes episódios.

“Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia”. 1 Coríntios 10:12

Vermos os ídolos (até então) imbatíveis sendo derrotados é um oportunidade para entendermos que todos estamos sujeitos à possibilidade de derrota.  A Escritura mostra que o cristão não é imune às lutas e tentações. Não está blindado.

Pra ser bem sincero, entender que “o pecado jaz à porta” é fundamental. Vivemos na dependência do Senhor justamente por não confiarmos nas nossas próprias forças.

“Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes”. Efésios 6:13

Outra tendência nossa é racionalizar a derrota.  Quando a Ronda perdeu, os teóricos de plantão elaboraram diversas teorias  sobre isso: super exposição na mídia, falta o foco, participação no cinema. Alguns até argumentaram que ela foi apenas uma “invenção” do UFC, desconsiderando que ela é atleta de nível olímpico.

Mas o fato puro e simples é que o “dia mau” chega. Não precisa de razões especiais. Não precisa de grandes explicações. Ele só chega.  A Ronda perdeu, e fim.

Em João 9 está registrada a história do cego de nascença. Os discípulos queriam saber porque ele havia nascido cego, e a explicação que Cristo dá não explica nada. Ele apenas afirma que foi para que as obras de Deus se manifestassem nele. Ele só nasceu assim, e fim. Deus glorificará seu nome nisto, e pronto.

Aplicando para nossa vida, eu vejo muita gente preocupada com “porquês”, cuja resposta nunca teremos.  Não se preocupem com a resposta, se ocupem com a solução. Cair é ruim, mas é pior permanecer caído.

“Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram”.  Romanos 12:15

Mas o que mais me chocou foi a reação do público brasileiro com a derrota do Aldo.  Em tempos líquidos*, nossos heróis são descartáveis.
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Não me lembro de ter visto manifestações de apoio. Toda a carreira brilhante foi desconsiderada após 13 segundos. José Aldo virou motivo de chacota.

E infelizmente, este fenômeno se repete na igreja. Qual a nossa reação quando vemos um irmão caído?  As vezes presenciamos pessoas que pisam-no, ao invés de levantá-lo.

Quando um pastor cai, a reação é ainda pior. Esquecemo-nos de toda a dedicação, tempo, esforço com que ele serviu a Cristo, e rotulamos o indivíduo a partir de uma falha. Criamos um ídolo, e quando ele não nos serve mais, jogamos fora. Mas o pastor não é  super-herói, é apenas uma pessoa que ama a Cristo e por isso cuida das pessoas que Cristo ama.

A crítica sobre a luta do Aldo é a crítica de quem nunca lutou, nunca pisou num tatame. Lutadores sabem que as vezes ganhamos, as vezes não. Que o importante é crescer, desenvolver a arte, a disciplina. Lutadores sabem que o resultado só é satisfatório se acompanhado de superação.

A crítica contra o irmão caído é a crítica de quem nunca lutou contra a própria carne. Crentes sabem que as vezes ganhamos, as vezes não. Que as vezes o bem que queremos fazer, não fazemos, e o mal que não queremos, fazemos. Que o importante é crescer, é sermos transformados.  Crentes sabem que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.

Quando traçamos estes paralelos, vemos que temos um longo caminho até mudarmos nosso modo de agir e reagir. Vemos que por baixo do verniz de religiosidade, ainda não saímos do formato cultural mundano.  Precisamos mais da cultura do Reino.

Temos a necessidade de sermos uma igreja organicamente viva, definida pelo amor e conhecida pela misericórdia. Uma igreja feita de pessoas.

 

*”Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar” – Zygmunt Bauman

SQN – Só QUEM não

Acho interessante o uso do SQN no fim de frases irônicas. SQN.

Pelo que me lembro, a utilização desta sigla começou a uns 2 ou 3 anos atrás, com a popularização de redes sociais. Mas penso que é um indicador de algo muito profundo. É o símbolo da nossa incapacidade de compreender um texto.

Só QUEM não consegue ler o texto, perceber as nuances do que está sendo construído, precisa da evidência que estão sendo irônicos.  Isso é algo que deveria ser percebido através da nossa sensibilidade.  Lamentavelmente,  se não colocar a dita sigla, como uma placa sinalizando curva perigosa, derraparão na compreensão do dito.  É a prova de que não somos bons leitores.

Só QUEM não escreve textos precisa lançar mão deste recurso. O sabor do texto está na conversa com o leitor, que vai construir o seu entendimento a partir do diálogo autor-texto-leitor, onde o próprio texto será acrescido da compreensão do leitor.  De certa forma, o texto só é do autor até chegar no papel. De lá em diante, o leitor se apropria dele, e vivencia-o.

E, cá entre nós, é um recurso feio. Não SOQUE não a nossa língua.  Ela é agredida com a feiura desta expressão.  E o papel de desconstruir o belo é contribuída pela obviedade dela. É explicar a piada; se o fizermos, matamos o riso. A beleza do texto está no surpreendente. A graça do texto é a surpresa.  O “SQN” é o auto-spoiler. Gol contra total. É o trailer que conta o final do filme.

Sabemos Que Nada disso seria assim se desde pequenos aprendêssemos a gostar de ler. Por exemplo, o humor leve do Fernando Sabino e Luis Fernando Veríssimo; ou a ironia fina de Machado de Assis, com certeza nos vacinaria. Criaríamos robustos anticorpos para resistir ao uso viral do “SQN”.

Sabe, Queridos, Navegar na net é bom. Aproxima, encurta distâncias, democratiza a comunicação, etc e tal. Mas faça um favor a si mesmo. Saía da rede, abra um bom livro, e aproveite a viagem.

Uma mente precisa de livros como uma espada necessita de uma pedra de amolar se manter afiada.” – Lannister, Tyrion*

 

*personagem das Crônicas de Gelo e Fogo, George R.R. Martin.

O que sobrou do Golpe de 64?

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Dia 31 de março completamos 50 anos do Golpe Militar que inciou um ciclo de 21 anos de ditadura. Mas, entre discurso inflamados, viúvas da ditadura, palavras de ordem estúpidas, o que restou para nós?

Sempre que ouço comentários sobre o período, os saudosistas pintam um cenário aquém da realidade.  “Queria ver no tempo dos militares, esses malandros …” e nas reticências o sentimento de ordem e paz pública, que  sufoca a verdadeira ordem, aquela em que não é necessário suprimir os direitos civis, as liberdades individuais. “Paz sem voz não é paz, é medo“*.

A ideia que se quer passar é que naquele momento histórico tudo ia bem: os pobres não eram tão pobres, as escolas não eram tão ruins, os bandidos não eram tão maus. Em que se pese que existe um senso comum que o ensino em geral tem retrocedido,  a definição mais exata deste discurso é o anacronismo**.

Por outro lado sempre que eu penso sobre luta contra Regime Militar, percebo a profundidade da sentença: “Ou você morre herói, ou vive o suficiente para se tornar o vilão”***.  Existiu uma geração engajada, que (não estou levando em consideração o mérito da questão) acreditava que podiam fazer a diferença. Eles acreditavam em mudança política, em formas de governo que beneficiariam o povo.  Porém, em sua maioria, tornaram cínicos manipuladores, usufruindo das benesses do poder, e enriquecendo ilicitamente.

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Tenho nojo dos “Genoínos” e afins, que começaram na guerrilha e terminaram na quadrilha. Tenho nojo da
caricatura que se tornaram, com o punho levantado e capinha de super heróis as costas, esquecendo-se que o principal adorno do homem é a vergonha na cara, esta definitivamente sumida.

Veja bem, minha bronca não é somente com o Genoíno, é com toda a geração revolucionária da sua época****, que hoje mantém o discurso de esquerda para iludir o eleitorado, enquanto fica “em casa, guardada por Deus (sic), contando vil metal“*****. Da esquerda brasileira, nos sobrou a frase feita, a palavra de ordem,  a conversa pra boi dormir, e uma teoria social sem a menor aplicação prática. 

A consequência  é a pior possível. Estamos em meio a uma esquerda falida, uns jovens imbecis metidos a revolucionários, tipo anonymous e black bostas, ops, black blocs, e uma direita que insiste em absorver o pior do capitalismo. A ignorância social e política chega a índices “australopitéticos”.

Enfim, o que restou do Golpe de 64 foi cinismo e desilusão.  A falha em qualquer sistema político é que ele  teima em resolver o problema social, mas esquece de resolver o problema do homem.  O ser humano é mau, pecador, egoísta, portanto preso ao pecado e ao sistema mundano. Como pode este mesmo ser humano produzir uma sociedade justa e igualitária antes de ter sido transformado em sua estrutura básica?  Ora, se eu sou mau e egoísta, o que se pode esperar da minha ação em sociedade? Óbvio que irei tomar a coisa pública para benefício privado.

Talvez você pense que estou errado neste ponto, mas basta olhar a história humana. Esta perspectiva mais ampla prova a verdade do pressuposto cristão – Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.  Por isso é necessário nascer de novo.

No fim, o que me restou do Golpe, e do posterior desenrolar da nossa história, é a esperança em Cristo. No homem e nos seus modelos, definitivamente, não dá.

 

*Trecho da canção “Minha Alma”, do Rappa

** Anacronismo é basicamente utilizar conceitos e contextos de uma determinada época em outra. Para saber mais, click AQUI.

***Frase icônica do filme Batman – o Cavaleiro das Trevas

**** Óbvio que existem exceções, e pessoas que ainda conseguem manter a integridade e o idealismo, como o meu pai, Alcir Matos. Mas são raridades.

***** Trecho adaptado da canção “Como nossos pais”, de Belchior

Caminhante da Vida

Um caminhante parte em direção ao nada. Não lembra o porque, nem como começou. Quando deu-se conta, caminhava, com seu pés movendo-se como que por vontade própria.

Assim ia, impulsionado pelo seu impulso de seguir sem rumo.

Passo a passo retorna também a lembrança. Nublada, ainda. Teria algum sentido o seu andar? Uma saudade comprime-lhe o peito, saudades do que ainda não é. Impacienta-se, chuta as pedras do caminho, pelo simples prazer de derramar a raiva e pelo mero prazer de arrebentar o próprio dedão.  Agora é sangue, poeira, pedra e dentes trancados.  Pra onde? Por que não pára? O que, afinal, ele está fazendo? Agora é vazio, impotência, calçada e sangue.  Resolve se distrair no caminho, tentativa de esconder a frustração   e enganar-se  um pouquinho, só mais um pouquinho.

Um caminhante queria uma calçada pra sentar na beira do caminho.  Abaixa-se, segura o chão, mas não consegue impedir-se de ser arrastado pelo caminho.  O caminho agora é quem caminha nele.  Agora é pedra, asfalto, cimento sugando-o num turbilhão de choro, dor, lamento e sangue.  Ele é chão, os dedos em carne viva e não tem onde ser segurar.

Pra onde vais, caminhante da vida? Par onde vais? Até quando o caminho te atropelará?

Um caminhante é erguido pelo vento.  O Sopro sussurra aquilo que ele não lembrava mais, a saudade do que não é vem acompanhada da certeza que será.

Assim ia, impulsionado pelo vento que conduz ao rumo.

Passo a passo retorna também a alegria. O caminho pode ser muito bonito, se sabe-se pra onde ele segue.

 

 

O Maior Escândalo de Todos os Tempos

Um escândalo percorre os corredores da congregação, passa pelas casas de família e repercute entre a vizinhança.

Horror! Uma verdadeira vergonha! Com ele pôde cometer um ato tão abjeto, jogar fora o seu ministério e envergonhar o povo de Deus dessa maneira?

Logo ele, que sempre foi um exemplo para os  mais jovens, caiu de modo deplorável. Um silêncio fúnebre restou, após o flagrante delito no qual ele foi pego. Não temos coragem para nos olhar nos olhos, pois a decepção nos pesa sobre os ombros e faz com que fitemos o chão.

Como agora ele irá reconstruir a sua vida, sua vida perante Deus? O que sua esposa irá fazer, será que ela conseguirá perdoá-lo por tamanha hipocrisia, posando de crente enquanto praticava… não consigo nem dizer.  Sabe aquele lance de #VergonhaAlheiaFeelings? Pois é.

Sei que ele poderá se reerguer, que o Senhor poderá restaurá-lo, pois grande é a Sua Graça e Misericórdia.  Mas não se sabe quanto tempo levará até que possa novamente estar de pé entre os santos. Não depois do que ele fez.  Não depois de deixar-se inflamar pelo inferno desta maneira, e ter contaminado todo o corpo.

Tá bem, vou te dizer o que ele fez, mas por favor, não me faça repetir, pois não sei se terei coragem de falar de novo.

Ele foi pego em flagrante ato de FOFOCAR.

“Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo.
Porque todos tropeçamos em muitas coisas.

Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo.
Ora, nós pomos freio nas bocas dos cavalos, para que nos obedeçam; e conseguimos dirigir todo o seu corpo.
Vede também as naus que, sendo tão grandes, e levadas de impetuosos ventos, se viram com um bem pequeno leme para onde quer a vontade daquele que as governa.

Assim também a língua é um pequeno membro, e gloria-se de grandes coisas.

Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia.

A língua também é um fogo; como mundo de iniqüidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno”. 

Tiago 3:1-6

P.S.:  Resolvi colocar esta explicação posterior devido a diversidade de leitores do meu blog. Penso que se não o fizer, tem gente que não entender o que estou querendo dizer com este post.

1 – Este post é ficção, não tente ficar imaginando se estou falando da vida de alguém, pois não estou.

2 – Dentro da igreja, existe uma expressão que comumente é associada a pecados de ordem sexual: “fulano caiu”. Normalmente essa afirmação é seguida da pergunta: “Caiu com quem?”. Infelizmente, por este hábito acaba se considerando pecados apenas os de ordem sexual, e desconsideramos as orientações bíblicas sobre nossa conduta moral em um âmbito mais amplo. E mais infelizmente ainda, percebo que a sociedade como um todo tem perdido os referencias morais.

Este post é sobre isso. Sem valor moral alicerçado, nossa vida espiritual é vazia, superficial, falsa e hipócrita.  Pense nisso.

 

 

Conceitos e palavras

Normalmente desconsideramos o valor dos conceitos claros e a utilização correta das palavras. Por causa disso, nossas palavras perdem o sentido original, e são modificadas e entendidas de modo bem diferente da sua aplicação e sentido original.

Qual o problema disto? Perdemos cada vez mais a capacidade de entender o outro e as coisas.

Servindo-me de um exemplo do Tio Almir, os elementos são tão próximos uns dos outros, que se não conseguirmos delimitá-los eles se confundirão. Enquanto teclo este post, percebo que meu notebook repousa sobre a mesa. Imagine a confusão que seria não perceber a fronteira entre ambos, sua finalidade, suas aplicações. A despeito de estarem absolutamente próximos, o conceito sobre ambos impede que eles se confundam.

Talvez a cerca de objetos concretos seja simples perceber seus limites. Mas, o exemplo acima serve apenas para ilustrar uma realidade abstrata e subjetiva, que tem por característica ser muito mais tênue e fugidia.

Philip Yancey, escritor cristão, capta perfeitamente esta necessidade sobre as palavras e conceitos, e tenta resgatar o sentido da palavra Graça em seu excelente livro “Maravilhosa Graça”.  O excesso de uso indevido tirou o poder e significado de várias palavras, e  Graça é a última palavra que consegue reter, mesmo quando mal aplicada, o cheiro do sentido original, e do anúncio alarmante e inesperado da Graça de Deus operando a salvação.

Pecado é outra palavra que perdeu seu sentido original. Virou  nome de novela, de sex shop, de uma infinidade de produtos. Ser moreno é ter a “cor do pecado”(hãn?), segundo uma expressão popular. Faz parte do nosso cancioneiro, figurando como algo ligado ao prazer e satisfação de desejos.  Por isso é tão difícil nós nos arrependermos, pois de que iríamos de nos arrepender?  De algo em si prazeroso?

A lista de palavras e conceitos errados é enorme. Desde quando louvor virou sinônimo de música? Quando foi que avivamento virou sinônimo de “meninice”? E quando “meninice” foi suprimido do vocabulário pentecostal?

Curiosamente, é em plena era da comunicação que a importância da palavra foi reduzida, talvez pela banalização da cultura, fruto de novos erros conceituais, na medida em que substituímos cultura por informação, e o  conhecimento por verbetes do Wikipédia.

Essa importância pode ser demonstrada em um pequeno trecho do “A menina que roubava livros”, de Markus Zusak:

“Era uma vez um homenzinho estranho, que decidiu três detalhes importantes sobre a sua vida:

  1. Ele repartiria o cabelo do lado contrário ao de todas as outras pessoas.
  2. Criaria para si mesmo um bigode pequeno e esquisito.
  3. Um dia, iria dominar o mundo 

O homenzinho perambulou por muito tempo, pensando, fazendo planos e procurando descobrir exatamente como tornaria o mundo seu. E então, um dia, saído do nada, ocorreu-lhe o plano perfeito. Ele viu uma mãe passeando com o filho.  A horas tantas, ela repreendeu o garotinho, até que ele acabou começando a chorar. Em poucos minutos, ela lhe falou muito baixinho, e depois disso ele se acalmou e até sorriu.

O homenzinho correu até a mulher e a abraçou. ‘Palavras!’ e sorriu. ‘O quê?’ Mas não houve resposta. Ele já se fora. 

Sim, o Führer decidiu que dominaria o mundo com palavras.”(…) 

Infelizmente, foi torcendo as palavras e bombardeando-as de modo incessante que o evangelho tem sido aviltado. E nos ecos da repetição incessante, seguindo a máxima de Goebbels*, impedindo que possamos enxergar os conceitos como ele verdadeiramente são.

Por conta disso, muitos acreditam na idiotizante e forjada “Lei da Semeadura”, com a reinventada tipologia bíblica, onde  agora semente não é mais tipo da Palavra de Deus, nem do Reino de Deus, e sim do dinheiro.

Queridos, só o que posso pedir é que vocês busquem o significado real das palavras. Entendam cada conceito, aquilo que realmente ela é e diz.  Cada palavra será uma descoberta de um mundo de significados, e em cada significado um mundo de ideias e possibilidades. E em meio a este novo universo descortinado pelas palavras, poderemos, com fé e amor, enxergar um pouquinho Dele, porque a lama dos conceitos errados saiu dos nossos olhos, e porque Ele quis se revelar pela Sua Palavra .

* Joseph Goebbles foi ministro de Comunicação de Hitler, responsável pelo intensidade da propaganda nazista. Atribui-se a ele a frase “uma mentira cem vezes dita, torna-se verdade”.

 

Convite à Doce Revolução

por Caio Fábio.

foto por Alcir Filho

Artigo 1 – Fica decretado que agora não há mais nenhuma condenação para quem está em Jesus, pois o Espírito da Vida em Cristo livra o homem de toda culpa para sempre.

Artigo 2 – Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive os sábados e domingos, carregam consigo o amanhecer do Dia Chamado Hoje, por isso qualquer homem terá sempre mais valor que as obrigações de qualquer religião.

Artigo 3 – Fica decretado que a partir deste momento haverá videiras, e que seus vinhos podem ser bebidos; olivais, e que com seus azeites todos podem ser ungidos; mangueiras e mangas de todos os tipos, e que com elas todo homem pode se lambuzar.

Parágrafo do Momento:

Todas as flores serão de esperança, pois todas as cores, inclusive o preto, serão cores de esperança ante o olhar de quem souber apreciar. Nenhuma cor simbolizará mais o bem ou o mal, mas apenas seu próprio tom, pois o que daí passar estará sempre no olhar de quem vê.

Artigo 4 – Fica decretado que o homem não mais julgará o homem, e que cada um respeitará seu próximo como o Rio Negro respeita suas diferenças com o Solimões, visto que com ele se encontra para correrem juntos o mesmo curso até o encontro com o Mar.

Parágrafo que nada pára:

O homem dará liberdade ao homem assim como a águia dá liberdade ao seu filhote para voar.

Artigo 5 – Fica decretado que os homens estão livres, e que nunca mais nenhum homem será diferente de outro homem por causa de qualquer Causa. Todas as mordaças serão transformadas em ataduras para que sejam curadas as feridas provocadas pela tirania do silêncio. A alegria do homem será o prazer de ser quem é para Aquele que o fez, e para todo aquele a quem encontre em seu caminhar.

Artigo 6 – Fica ordenado, por mais tempo que o tempo possa medir, que todos os povos da Terra serão um só povo, e que todos trarão as oferendas da Gratidão para a Praça da Nova Jerusalém.

Artigo 7 – Pelas virtudes da Cruz fica estabelecido que mesmo o mais injusto dos homens que se arrependa de seus maus caminhos terá acesso à Arvore da Vida, por suas folhas será curado, e dela se alimentará por toda a eternidade.

Artigo 8 – Está decretado que pela força da Ressurreição nunca mais nenhum homem apresentará a Deus a culpa de outro homem, rogando com ódio as bênçãos da maldição. Pois todo escrito de dívidas que havia contra o homem foi rasgado, e assustados para sempre ficaram os acusadores da maldade.

Parágrafo único:

Cada um aprenderá a cuidar em paz de seu próprio coração.

Artigo 9 – Fica permanentemente esclarecido, com a Luz do Sol da Justiça, que somente Deus sabe o que se passa na alma de um homem. Portanto, cada consciência saiba de si mesma diante de Deus, pois para sempre todas as coisas são lícitas, e a sabedoria será sempre saber o que convém.

Artigo 10 – Fica avisado ao mundo que os únicos trajes que vestem bem o homem diante de Deus não são feitos com pano, mas com Sangue; e que os que se vestem com as Roupas do Sangue estão cobertos mesmo quando andam nus.

Parágrafo certo:

A única nudez que será castigada será a da presunção daquele que se pensa por si mesmo vestido.

Artigo 11 – Fica para sempre discernido como verdade que nada é belo sem amor, e que o olhar de quem não ama jamais enxergará qualquer beleza em nenhum lugar, nem mesmo no Paraíso ou no fundo do Mar.

Artigo 12 – Está permanentemente decretado o convívio entre todos os seres; por isso, nada é feio, nem mesmo fazer amizades com gorilas ou chamar de “minha amiga” a sucuri dos igapós. Até a “comigo-ninguém-pode” está liberta para ser somente a bela planta que é.

Parágrafo da vida:

Uma única coisa está para sempre proibida: tentar ser quem não se é.

Artigo 13 – Fica ordenado que nunca mais se oferecerá nenhuma Graça em troca de nada, e que o dinheiro perderá qualquer importância nos cultos do homem. Os gazofilácios se transformarão em baús de boas recordações, e todo dinheiro em circulação será passado com tanta leveza e bondade que a mão esquerda não ficará sabendo o que a direita fez com ele.

Artigo 14 – Fica estabelecido que todo aquele que mentir em nome de Deus vomitará suas próprias mentiras e delas se alimentará como o camelo, até que decida apenas glorificar a Deus com a verdade do coração.

Artigo 15 – Nunca mais ninguém usará a frase “Deus pensa que…”, pois, de uma vez e para sempre, está estabelecido que o homem não sabe o que Deus pensa.

Artigo 16 – Estabelecido está que a Palavra de Deus não pode ser nem comprada e nem vendida, pois cada um aprenderá que a Palavra é livre como o Vento e poderosa como o Mar.

Artigo 17 – Permite-se para sempre que onde quer que dois ou três invoquem o Nome em harmonia, nesse lugar nasça uma Catedral, mesmo que esteja coberta pelas folhas de um bananal.

Artigo 18 – Fica proibido o uso do Nome de Jesus por qualquer homem que o faça para exercer poder sobre seu próximo, e estabelecido que melhor que a insinceridade é o silêncio. Daqui para frente, nenhum homem dirá “O Senhor me falou para dizer isto a ti”, pois Deus mesmo falará à consciência de cada um. Todos os homens e mulheres que crêem serão iguais, e ninguém jamais demandará do próximo submissão, mas apenas reconhecerá o seu direito de livremente ser e amar.

Artigo 19 – Fica permitido o delírio dos profetas, e todas as utopias estão agora instituídas como a mais pura realidade.

Artigo 20 – Amém!

Li este texto do Caio no blog: Desejando Deus. Tive que reproduzi-lo aqui, por causa sua da beleza e profundidade. A Deus toda a glória. E que o nosso amém continue a ecoar, e que o Senhor escreva estas verdades nas tábuas de carne do nosso coração.

Os Invisíveis

Quando criança ele brincava de super herói. Pé no chão de piçarra, pulava as valas abertas que levavam dejetos, num lugar que desconhecia saneamento básico. Finas perninhas tortas, barrigão tufado,uma verdadeira confraternização universal das lombrigas.

Pulava, corria, suava.Queria ser o Homem Invisível, derrotar os malfeitores, ser o símbolo da justiça. Usaria seus poderes para estabelecer o bem. Os super vilões não contavam com a sua astúcia. E seguiam-lhe os bons.

Por ironia do destino, cumpriu-se em parte seu desejo. Ele a cada dia ficava mais invisível. Ninguém notava suas ausências constantes na pequena escola que frequentava. Inicialmente, diziam que ele “não queria nada com a vida”. Mas era a fome que o impelia a ir atrás de um paliativo. Cheirava cola, fazia pequenos bicos. O mísero lucro obtido desaparecia sob os tabefes dados por sua mãe. E foi sumindo de casa também.

Hoje ninguém o vê. Passamos diariamente por ele, que nos olha pelos vidros fechados do carro, enquanto estamos fechados na nossa ignorância de nos sentirmos melhores dos que não tem nada. Sua pobreza agride por evidenciar nosso desinteresse, egoísmo e acomodação. Por isso não o vemos.

mas ele está na esquina, dormindo debaixo da marquise. Ele é aquele que nos apavora, com o medo de sermos assaltados – pois obstinadamente concluímos que miséria é sinônimo de criminalidade. A sombra de sua presença não notada é constante.

Amanhã, ele será o velho homem chorando as lágrimas do abandono. As gotas escorrem pelas rugas, e são enxugadas por sua mão sempre trêmula. Não receberá visita alguma de parente algum no seu asilo, pois não queremos o que não seja novo e belo. Suas lembranças cortarão sua alma, e ele dará graças a Deus quando elas forem embora, junto com sua lucidez.

São os invisíveis. Apagados da sociedade, enquanto consumimos.

Cenas

Já passaram-se doze anos..

Cena 01:
Tarde na sala, revirando vinis velhos, escavando boa música com a dedicação de um arqueólogo. A poeira e o mofo já nem incomodam mais, de tão habituado a eles. Descubro a boa música. Elis, Bethânia ( em especial o “Recital na Boite Barroco”), Chico, Caetano (ainda tropicalista), Jorge Ben (antes do Jor), tantos outros. A música permeia meus dias, entranha na minha pele. Eles cantam minha história, meus amores, meu ímpeto adolescente. Sou eu, metamorfoseado em versos e melodias, derramado no mundo a partir da sala da minha casa no Coqueiro.

Cena 02:
Volta pra casa. Olho pela janela do “Jibóia Branca” lotado e fedorento, enquanto o sol que reinava absoluto se esconde por trás de pesadas negras nuvens. O retorno para o lar sempre trazia consigo essa aventura, com a pontualidade britânica das águas amazônicas. Preparo-me para a corrida desenfreada para chegar em casa antes da chuva. Desço, corro, molho-me. As bainhas da calça de tergal azul tornam-se marrons da lama, a queda espreita a cada passo. Chego encharcado, ofegante, a adrenalina pulsando forte nas veias. De novo. Prometo que no outro dia levarei o guarda chuva. Nunca cumpri essa promessa.

Cena 03:
Minha varanda tem a voz do Paul MacCartney. Deitado na rede, com a perna dando o impulso que implusionam os meus sonhos, fecho os olhos para ver o futuro, negligenciando o presente. Minhas digressões fazem-me percorrer a vida, com o peito cheio de esperança, e me levam a crer que no fim tudo dará certo, mesmo sem saber como. Varanda, Beatles, rede e sonhos compõem um lindo quadro, já vivido. E perpetuaram-se no imaginário.