Adeus, inocência?

Como lidar com a contante perda de confiança nas pessoas?  Essa questão tem me martelado constantemente de uns tempos pra cá.

Reconheço a minha tendência à inocência. Quero acreditar que as pessoas podem ser decentes, que é possível viver uma vida digna. Quero acreditar que vale a pena ser honesto, que vale a pena ser tentar ser justo. Quero acreditar que o “mundo é bão, Sebastião”*.

Daí a surpresa ao descobrir que as coisas não são como deveriam ser. Elas são como são, e são constantemente feias.

Hoje já entendo por que tem tanta gente amarga no mundo. As pessoas são ruins, e as vezes fazem o mal gratuitamente. E isso é assustador, por não ser raro. É difícil manter o coração funcionando direito depois de algumas punhaladas.

Quando  cultivamos determinados tipos de valores, é difícil e demorado para perceber isto. Sabe aquele tipo de gente que se emociona vendo “Homens de Honra”** pela milésima vez? Pois é.  Sou esse cara, que não sabe nada, inocente,*** e tem dificuldade de adaptação.  A forma como enxergo a vida está em desarmonia com os “fatos da vida”.

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Confio em laços de amizade. Mas  não consigo mais quantificá-los, não sei quantos destes ainda tenho.  O que vejo é que eles são facilmente desatados, e substituídos por algum tipo de utilitarismo – você só serve enquanto serve para algum fim.  A fidelidade canina das amizades eternas, sólidas e inegociáveis, não sei onde colocar.  A quem dedicá-la.

Confio em palavra empenhada. Mas não confio nas pessoas que as empenham, frequentemente.  São poucos homens de caráter que conheço. A ideia de ter caráter parece-me ter caído em desuso.

Acredito em vida pautada em ideais. Mas tenho me deparado com a mesquinhez e a ganancia sórdida. Passa-se por cima de tudo e todos, desde que se consiga o objeto do desejo.

A questão permanece: como lidar com isso?

A inocência, sempre que me deixa, me torna mais amargo, fechado e cruel.
A inocência, sempre que me deixa, me tornar mais parecido com aqueles que eu desprezo.

O que fazer? Assumir que a  minha visão é pueril e inadequada para vida adulta? Aceitar que “as coisas são assim mesmo”, e me adequar ao modus operandi?  Dizer, simplesmente, “Adeus, inocência”?dvd-homens-de-honra-robert-de-niro-cuba-gooding-jr_mlb-f-3338751391_102012

Ou insistir? Manter os valores, a honra, mesmo indo contra a correnteza?

“Droga, cozinheiro, mexa-se. Eu quero os doze passos!”****.

A tentativa de ser moral em meio à imoralidade é inocência, eu sei. Mas por enquanto não conseguiria ser de outra forma.

Digo, então, “Vai ficando, inocência. Vai ser doloroso, mas é o melhor pra gente”. Preciso ser diferente daqueles que desprezo. Apego-me à ela para preservar a minha alma.

 

 

* Citação de O Mundo é Bão, Sebastião! – Nando Reis
**Men of Honor (Homens de Honra no Brasil e em Portugal), é um filme norte-americano de 2000, dirigido por George Tillman Jr., com roteiro de Scott Marshall Smith e trilha sonora de Mark Isham. É baseado na história verídica do Sargento Carl Brashear. No elenco, Cuba Gooding Jr., Robert de Niro, Charlize Theron e Powers Boothe, entre outros. (dados Wikipédia)
*** Frase icônica de Cumpadi Washington
****Citação do filme referido acima.

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